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Sobre economia, negócios, investimentos e projetos
Darci Prado Bookmark and Share

Resumo

Este texto é inspirado na segunda edição do livro Gerenciamento de Projetos para Executivos e procura mostrar a forte ligação que existe entre economia, negócios, investimentos e gerenciamento de projetos. Em particular, é feita uma avaliação do impacto dessa relação na carreira de profissionais ligados a projetos. Apresenta-se uma análise desses assuntos no Brasil a partir da crise financeira mundial iniciada em meados de 2008.

Os novos desafios da economia mundial

O mundo hoje depende de projetos: quase um terço da economia mundial é gerado por meio de projetos [1]. Para muitas organizações, são eles que garantem o dia de amanhã e lhes permitem sobreviver e crescer. Projetos podem ser identificados na construção de uma nova fábrica, no lançamento de um novo produto, na reestruturação de uma empresa recém-adquirida, no desenvolvimento e na implementação de um aplicativo informatizado. O gerenciamento de projetos é o agente que torna real as ideias oriundas do planejamento estratégico e das lideranças das organizações.

Nos últimos 40 anos, temos observado diversos fatos na economia mundial que têm alterado o equilíbrio entre as nações. Entre eles, podemos destacar o enorme crescimento do Japão, a partir dos anos 70, e dos tigres asiáticos, nos anos 80. Para Thomas Friedman, escritor e jornalista, autor de “O Mundo é Plano” [2], novos fatos estão ocorrendo no palco mundial. Friedman afirma que a globalização iniciou uma nova fase, entitulada Globalização 2.0, por volta de 2000.

Nesse processo, “não apenas as empresas, mas também os indivíduos podem atuar em âmbito mundial graças a inovações tecnológicas tais como a internet, a telefonia celular e a rede de fibra óptica mundial. Toda a economia mundial se apoia em uma nova plataforma que permite múltiplas formas de comunicação, colaboração e inovação, que estão achatando o mundo e transformando todos nós em vizinhos”. Nesse novo cenário, uma constatação pode ter impacto fulminante nas economias dos países (inclusive desenvolvidos) e na conservação do emprego de sua população: o trabalho vai para onde pode ser feito melhor e mais barato.

Esse axioma, juntamente com a possibilidade de quebrar cada atividade em partes menores e as distribuir para serem realizadas por diferentes pessoas e em diferentes locais (ou países), são os pilares para a nova expansão de um fenômeno conhecido como terceirização do trabalho. Países como China e Índia estão se beneficiando enormemente neste novo cenário.

O Brasil neste cenário

Como fica o Brasil neste cenário? Estamos preparados? O Brasil já é um participante ativo do Mundo Plano de Friedman, mas não na intensidade da China e da Índia. Por um lado, observando a evolução positiva de nossa indústria, do agrobusiness, do desenvolvimento de software e da exportação, somente temos de ser otimistas. Segundo estudos de Goldman Sachs, fazemos parte de um grupo, o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), que participaria da liderança da economia mundial em 2030. O País entrou em uma forte rota de crescimento na última década e a grande novidade foi o extraordinário crescimento da classe média. Aproximadamente 23 milhões de pessoas saíram de classes pobres para a classe média, fazendo com que ela tenha uma participação demográfica acima de 50% [3].

Assim estamos vendo emergir uma nova cara para o Brasil, com um novo e sustentável padrão de consumo. Uma gigantesca massa de novos brasileiros está fazendo parte ativa da economia e, assim, estamos afastando o nosso maior pesadelo de ser eternamente um país grande e pobre e a mercê de falsos “salvadores da pátria”. Faz-se necessário ressaltar que esse não foi um fenômeno exclusivo do Brasil: os bons ventos econômicos da primeira década deste século atingiram dezenas de países, com ênfase nos emergentes.

O destaque ocorreu no comportamento excepcional que tivemos na crise financeira mundial deflagrada nos Estados Unidos, em 2008, quando o aumento do consumo das famílias brasileiras contrabalançou a queda nos investimentos. Esta crise resultou em um PIB negativo de -0,6% para o Brasil, sendo que houve uma queda de 11% nos investimentos. Conforme dito, a situação só não foi pior (tal como ocorreu em muitos outros países) porque o consumo das famílias aumentou em 2,5%.

Com relação a investimentos, de acordo com BNDES-IBGE-IEDI [3,4,5], a evolução histórica no Brasil e a tendência para os próximos anos são mostradas na Figura 1. Os valores percentuais mostrados nesta figura referem-se à Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que corresponde ao investimento em máquinas, equipamentos e construção, de investimentos públicos e privados, tanto em infraestrutura (estradas, ferrovias, portos, aeroportos, saneamento, energia e telecomunicações), como em unidades voltadas para produção. Os valores para o Brasil estão se alinhando com o de muitas nações, mas ainda muito abaixo de Índia e China. Na Tabela 1 mostramos alguns dados de 2008 e 2009 [6].

A comparação com China e India é muito apropriada. A China cresce a altas taxas há cerca de 30 anos e, para a Índia, os valores são inferiores, mas igualmente significativos, conforme visto na Figura 2-esquerda [5,6]. Na realidade, esses dois países estão crescendo mais que todo o restante do mundo. O Brasil também está tendo um bom desempenho e, a se manterem as taxas de 2010 (acima de 5%), espera-se que o país saia da oitava posição de 2010 e se torne o quinto maior PIB mundial por volta de 2016.

No entanto, o crescimento percentual do PIB-Brasil tem sido significativamente inferior aos da China e India (e também de alguns outros países). Veja a Figura 2-direita, que mostra a participação percentual do Brasil no PIB mundial. Em 25 anos saímos de uma participação de aproximadamente 3,5% para 2,90% [5,7], ou seja, diminuímos relativamente de tamanho no cenário econômico mundial.

Uma preocupante constatação já nos atinge: observa-se uma crescente tendência de produtores nacionais em produzir seus produtos na China e/ou importar para comercializar aqui. Isso afeta nossa competitividade indústria. Ao mesmo tempo em que a China é a locomotiva da economia mundial com uma enorme capacidade de compra de produtos de outras nações (material prima, em particular), e isso tem beneficiado alguns setores de muitos países (do Brasil, inclusive), ela também representa uma ameaça a outros setores pela forte capacidade de vender seus produtos a preços imbatíveis.

O impacto no gerenciamento de projetos

Existe uma ligação forte entre economia e investimentos, assim como existe também uma forte ligação entre investimentos e projetos, ou seja, a economia afeta a “profissão gerenciamento de projetos”. Os anos de 2009 e 2010 foram especialmente difíceis para projetos de capital nas organizações privadas no Brasil. Essa forte retração nos investimentos teve consequências diretas em gerenciamento de projetos. Nesses dois anos, observamos uma diminuição das equipes voltadas a projetos de capital relativamente a novas fábricas ou expansão das existentes. O que afetou principalmente engenheiros, gerentes de projetos e equipes de Project Management Office (PMO).

Além da crise financeira mundial, a expansão comercial da China em todo o mundo, e inclusive no Brasil, é outro complicador. Muitas fábricas preferem produzir na China ou comprar produtos chineses para revender no Brasil. Além disso, estamos também perdendo competitividade quando tentamos exportar para outros países. Tudo isso implica em aumento de market-share para a China e, portanto, implica em perda de empregos no Brasil.

O mesmo fenômeno afeta outros países, particularmente os EUA, e traz impacto tanto na produção como na expansão da produção, ou seja, impacta pessoas envolvidas com gerenciamento de projetos. Concluindo, o Brasil, e todo o mundo, está perdendo empregos para a China. Importante dizer que não desejamos ser radicais: o Brasil exporta muitos produtos para a China, particularmente minério, soja e café, alem de outras matérias primas e, também vemos o crescimento do emprego. Mas essa balança é perigosa.

Temos ainda o caso da Índia, que se tornou o principal player mundial no ambiente de sistemas de informação, utilizando o mesmo recurso que a China: mão de obra parada e qualificada. Novamente vemos o impacto que isso está causando no Brasil, tanto na operação de sistemas computacionais como no desenvolvimento de novos sistemas. Impacto válido novamente para negócios internacionais, quando competimos com a Índia. Temos mais uma vez um impacto negativo na geração de empregos para profissionais ligados ao gerenciamento de projetos, apesar de esse setor ter registrado crescimento. Imagine como seria se o concorrente não fosse tão competitivo.

Vamos analisar os aspectos positivos e falar do enorme potencial do Brasil em projetos de infraestrutura, de petróleo, mineração e do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Temos também o robusto crescimento do setor de incorporação imobiliária. Em tudo temos um quadro oposto, no qual oportunidades estão sendo criadas no país e estamos desenvolvendo enormes habilidades em tecnologia e em gestão de projetos. Importante ainda salientar a importância que terá para esta prática os próximos megaeventos esportivos mundiais que serão sediados no Brasil, a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Por outro lado, crises também motivam a buscar obter o máximo com o ativo existente. Então, projetos de melhorias de processos rotineiros (on going operations) ou de otimização de equipamentos existentes prosperaram bastante nos dois últimos dois anos.

Conclusões

Não é o objetivo neste texto propor medidas para os problemas elencados anteriormente, mas somente discutir o impacto que gera na profissão. Projetos, tal como a economia e os negócios, são afetados por crises, por mudanças de estratégias e por mudanças no tabuleiro de poder entre as empresas e nações. O vai e vem da economia pode afetar diretamente algumas categorias de negócios e, por consequência, os profissionais envolvidos com projetos.

Isso nos permite afirmar que, para algumas categorias de projetos, se trata de uma profissão de risco e, como tal, pode apresentar oportunidades e ameaças. Alguns profissionais devem ficar atentos a esse aspecto para melhor planejar a sua carreira e compreender o risco da área em que atuam e, assim, se prepararem para momentos de crise. Para isso, a leitura de cadernos de economia de jornais e de revistas de negócios como Exame e Valor pode ser tão importante como a leitura de revistas especializadas em gerenciamento de projetos. Caso o leitor não possua investimentos em ações em bolsa de valores, pode ser uma boa ideia começar a fazê-lo, pois isso o motivará a manter um olho na economia para deixá-lo mais bem informado, além de, eventualmente, trazer-lhe algum ganho financeiro.

Referências

1. Tuner, R. - The Nine Schools of Project Management. In: Special Eden Doctoral Seminar - ESC-Lille. Proceedings ..., Lille (France): 2008.

2. Friedman, T., O Mundo é Plano, Editora Objetiva, 2005, p.11-60.

3. IEDI – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial – Disponível em www.ied.org.br. Acesso em 10-Janeiro-2011.

4. BNDES-IBGE, Investimentos 2009 Caem ao Pior Nível de 96, Resumo publicado no Jornal Folha de São Paulo, Caderno Dinheiro, página B3, 12 Março 2010.

5. Exame, Revista, Começa a Década da Infraestrutura, São Paulo: Editora Abril, 21-Abril-2010, p. 20-30.

6. Exame, Revista, Grandes Números, São Paulo: Editora Abril, 29-12-2010, p. 32.

7. Fontes: Banco Mundial (Global Development Finance), Austin Rating, Cepal, Bloomberg, The Economist e Jornal Folha de São Paulo, Caderno Especial, 30 de Julho de 2006.

Sobre o autor

Darci Prado é consultor-sócio do INDG, engenheiro, com pós-graduação em Engenharia Econômica e doutorado em Engenharia pela UNICAMP. Trabalhou na IBM durante 25 anos e foi professor da Escola de Engenharia da UFMG por 32 anos. É possuidor da certificação do IPMA, nível B. Participou da fundação dos capítulos do PMI em Minas Gerais e Paraná e foi membro da Diretoria do PMI-MG entre 1998 e 2002 e do Conselho Consultivo entre 2003 e 2009. Participou da fundação e foi presidente da representação da IPMA em MG entre 2006-2008. Está conduzindo a pesquisa sobre Maturidade em Gerenciamento de Projetos, juntamente com Russell Archibald, e um grupo de voluntários. É autor de sete livros sobre gerenciamento de projetos, da metodologia MEPCP e do modelo de maturidade MMGP (e-mail: darciprado@uol.com.br).

Fonte: Revista Brasileira de Gerenciamento de Projetos (RBGP). Volume 9 - Número 01.

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