| "Gerenciamento é essencialmente método" O bom senso não é suficiente para garantir uma administração eficiente de seu negócio. O segredo do gerenciamento competente está no método. É o que pensa o consultor Vicente Falconi Campos - o único brasileiro escolhido como uma das "21 vozes do século XXI" pela American Society for Quality (ASQ). Segundo ele, são necessárias disciplina e sistema para estabelecer e cumprir metas. Nessa entrevista, Falconi avalia o nível de competitividade das empresas brasileiras, a implantação dos programas de qualidade nos organismos públicos e fala sobre o crescimento dos movimentos estaduais pela qualidade no País. |  Prof. Vicente Falconi Campos
| Equipe Editorial - Como o senhor avalia o nível da competitividade das empresas brasileiras? Vicente Falconi - Vários aspectos afetam a competitividade de uma empresa. Entre os principais estão a sua capacidade gerencial; a competitividade brasileira em cada setor; a situação cambial e o nível de demanda de capital do setor; as condições locais onde a empresa está instalada, etc. No entanto, vou analisar, especificamente, a competitividade intrínseca da empresa - aquela devida a própria capacidade de sua liderança, sua capacidade técnica e gerencial. Sob este aspecto, creio que o Brasil está bem. É evidente que nem todas as organizações se encontram num estado avançado, mas todos, hoje, no Brasil, já falam de padronização, treinamento no trabalho, metas, planos de ação, etc. Isto era praticamente ausente na década de 80. Equipe Editorial - O que elas devem fazer para superar um quadro de altas taxas de juros e crescer ao mesmo tempo? Vicente Falconi - Em geral, elas têm três caminhos para melhorar os seus resultados: aumento nas vendas, redução de custos variáveis e de custos fixos. Ações gerenciais nestas três frentes são imperativas. No entanto, a única frente sobre a qual temos total controle são os custos fixos. Eu recomendo ênfase neste ponto, em particular em empresas produtoras de comodities ou produtos comoditizados. Equipe Editorial - Desde o ano passado, a balança comercial brasileira está batendo recordes. Isso é um indício de que as coisas realmente estão melhorando ou ainda não chegamos num nível satisfatório? Vicente Falconi - Se vocês observarem a economia brasileira nestes últimos quinze anos, saímos do caos para uma atual situação que classificaria como difícil. Iniciamos a correção da economia eliminando o tabelamento de preços. Depois passamos por um processo de contenção da inflação, utilizando a âncora cambial e pagamos um preço muito caro por isso. Depois, liberamos o cambio e conseguimos fazer um reajuste das transações correntes, de tal forma que já não existem muitos problemas na área do dólar. Agora, estamos lutando para ter uma âncora fiscal que ainda não temos. Só teremos uma âncora fiscal, que seria o passo final da "tomada de juízo" do Brasil, quando conseguirmos um equilíbrio orçamentário nas esferas federal, estadual e municipal. Sinto que ainda temos uma longa caminhada nesta área, pois isto exige uma mudança cultural significativa, principalmente entre os nossos políticos. Equipe Editorial - De que forma os programas de gestão pela Qualidade são utilizados nos órgãos públicos? Vicente Falconi - Gerenciamento ainda é utilizado de forma muito precária pelo setor público. A grande alavanca é a Lei de Responsabilidade Fiscal. De uma maneira geral, os políticos têm dificuldades em entender o que é gerenciamento, porque não é da natureza de sua formação. Existem algumas prefeituras que fizeram um bom trabalho neste sentido como as de Uberlândia, São José do Rio Preto e Poços de Caldas. Temos também trabalhos sendo conduzidos de forma esparsa em Governos Estaduais e Ministérios. Creio que é um bom começo. Parte importante desse trabalho ainda é patrocinado por empresários que, pela sua formação, sabem do valor de um bom gerenciamento. Equipe Editorial - Qual o segredo para incentivar funcionários públicos a participar da implantação de programas de gestão pela qualidade? Vicente Falconi - Nossa experiência mostra que os funcionários públicos são seres humanos como outros quaisquer, ansiosos por trabalhar e apresentar bons resultados. Todos nós ansiamos pelo reconhecimento de nosso trabalho; queremos ser excelentes por natureza. O que falta é bom gerenciamento e boa liderança. A desmotivação é a percepção, aliás, muito saudável, do abandono. Equipe Editorial - A Lei de responsabilidade fiscal está conseguindo colocar ordem na casa? Vicente Falconi - Sim. Quem votou esta lei não tinha a noção de sua extensão. Tanto que tentaram modificá-la depois e, ainda bem, não conseguiram. Equipe Editorial - Ainda existe muita resistência na aplicação de programas de qualidade na maioria das empresas brasileiras? Vicente Falconi - Não há resistência quando existe a percepção de que as ações propostas são competentes e conduzirão a resultados. O INDG tem crescido muito devido a esta demanda natural por bons resultados. A consultoria tem que assumir a responsabilidade de colocar por escrito, em sua proposta de serviço, a ordem de grandeza do retorno que pretende levar à empresa e como medir o seu desempenho. Equipe Editorial - Como o senhor avalia os movimentos regionais pela qualidade? Vicente Falconi - Difícil dizer. São ótimos quando atuam e fazem muita coisa acontecer. No entanto, boa gestão não é algo que se faz somente por boa vontade. É necessário conhecer os métodos e técnicas que fazem com que os resultados aconteçam mais rápidos. Quando um movimento atua muito rápido acaba faltando consultor e muita gente que não tem a qualificação necessária se apresenta, deteriorando a imagem do movimento. Temos que ter cuidado. Equipe Editorial - Como o senhor está vendo a consolidação do Movimento Brasil Competitivo? Vicente Falconi - O empresário Jorge Gerdau Johannpeter "esquenta" qualquer movimento. O MBC está atuando fortemente junto ao Governo e creio que teremos boas surpresas em futuro próximo. O trabalho do MBC é muito importante no sentido de levar técnicas gerenciais a todos. A maior dificuldade que vejo é que quando se fala em "gerenciar" cada um entende uma coisa. Poucas pessoas sabem que gerenciamento é essencialmente método e não "bom senso". Eu gostaria de citar Descartes em seu livro "O Discurso do Método" quando ele diz que "bom senso deve ser a coisa mais bem distribuída no mundo, pois ninguém deseja ter mais do que o que já possui". O trabalho do MBC é essencialmente missionário. Equipe editorial - Em suas entrevistas o senhor sempre cita o Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade como exemplo de movimento regional. Na sua opinião, o que diferencia o PGQP de outros movimentos regionais? Vicente Falconi - Os gaúchos têm a sorte de ter uma pessoa com o caráter, o entusiasmo, o desprendimento e a liderança de Jorge Gerdau Johannpeter. Ele é a diferença. Ama o Rio Grande do Sul e quer diferenciar o seu Estado. Equipe Editorial - O senhor poderia falar um pouco sobre o crescimento do INDG nos últimos anos? Vicente Falconi - O INDG tem crescido muito e hoje é uma organização referência em consultoria empresarial. Temos em nosso quadro profissional aproximadamente 500 pessoas de nível superior. O fato mais notável do INDG é o seu compromisso com os resultados financeiros do trabalho de consultoria efetuado. Estamos atuando em centenas de empresas e órgãos públicos brasileiros, bem como em vários países. Aliás, descobrimos que somos competitivos no exterior e nossas exportações tem aumentado velozmente. Estamos atuando na China, Estados Unidos, México, Colômbia, Venezuela, Uruguai, Itália, Eslovênia, Luxemburgo, Áustria e Hungria. Estamos agora em conversações para entrar na Espanha. Isto é muito bom, pois estamos "ombreando" nossos consultores com os estrangeiros e temos sido respeitados. Já somos uma grande consultoria brasileira, mas queremos estar entre as dez primeiras do mundo daqui a dez anos. Entrevista concedida com exclusividade à equipe editorial da Enfato Comunicação Empresarial para o portal do Movimento Brasil Competitivo. Entrevista concedida com exclusividade à jornalista Raquel Boechat para o MBC Fonte: Portal do Movimento Brasil Competitivo (www.mbc.org.br) |