A receita para se alcançar a qualidade total
Um dos papas mundiais da técnica diz que as empresas evoluíram muito, mas são prejudicadas pelo governo

Jean Carlos Souza - Especial para A Notícia/SC

Concórdia/SC - Vicente Falconi se transformou em celebridade no início dos anos 90 escrevendo sobre algo que revolucionou as grandes empresas brasileiras. Maior especialista do País em qualidade total, ele vendeu mais de 1 milhão de livros até hoje, explicando como um bom gerenciamento garante a sobrevivência de um negócio. "A qualidade total não tem mistérios. Basta estabelecer uma meta e montar um plano de ação", ensinou Falconi.

O professor, que há dois anos não fazia palestras, aceitou conversar com cerca de 400 empresários de Concórdia no dia 16 de abril/04, no intervalo da assembléia dos acionistas da Sadia. Durante um almoço, Falconi ensinou o que se deve fazer para manter uma empresa nos trilhos e não utilizou meias-palavras quando comentou sobre a situação econômica do País. "Torço muito por esse governo, mas não estamos fazendo a coisa certa para termos juro baixo e crescimento econômico. O espetáculo do crescimento não virá logo", disse o consultor.

A notícia boa é que as empresas brasileiras já estão entre as melhores do mundo em qualidade total. Segundo Falconi, o Brasil aprendeu tão bem a lição, que formou até consultores que atuam nos Estados Unidos, Europa e América Latina. Para os empresários que precisam melhorar o gerenciamento, Falconi manda um recado. "O equilíbrio financeiro é o segredo de qualquer empresa, não importa o tamanho. E equilíbrio financeiro se obtém com meta, plano de ação, orçamento, conhecimento do cliente e esforço". Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida para A Notícia:

A Notícia - Como é uma empresa que pratica a qualidade total?
Falconi - Praticar qualidade total, no fundo, é praticar gerenciamento. A gente não deve nunca complicar muito essas coisas. Praticar gerenciamento bom é colocar uma meta. É ter metas. E montar planos de ação para atingir essas metas. O que o empresário quer? Qual a meta dele? Ele quer aumentar as vendas, ele quer reduzir os custos? O que eu sugiro para qualquer empresário, de qualquer tamanho, é: defina uma meta e monte um plano de ação. As coisas não são complicadas. As coisas são simples, mas têm de ser feitas. E tudo começa pela meta.

A Notícia - Para uma empresa grande ou para uma empresa pequena, a receita é a mesma?
Falconi - Não tem diferença. O que é uma empresa grande? É o somatório de pequenas empresas. No fundo, se você pega uma empresa como a Sadia, que é gigantesca, você vai ter pequenos setores, todos eles com meta, todos eles com plano de ação. É assim que uma empresa funciona. No entanto, a maior parte das empresas, especialmente as pequenas e médias, nem orçamento tem. Trabalha com caixa que vai entrando e saindo. Não há controle numa situação como essa. Toda empresa deve ter um orçamento, uma previsão de vendas, por mais simples que sejam esses planejamentos.

A Notícia - Qual a análise histórico-crítica que se pode fazer sobre a qualidade total no Brasil?
Falconi - O movimento do gerenciamento pela qualidade total se desenvolveu muito no Brasil. Na primeira metade dos anos 90, existiam no Brasil em torno de 150 consultores. Hoje, o número de consultores subiu para 450, que atuam em todo o País e são muito requisitados. Atuamos ainda no exterior, em vários países da América Latina. A qualidade total não é mais uma novidade. Passou a ser o cotidiano, o corriqueiro dentro das empresas brasileiras.

A Notícia - O que o senhor escreveu no final dos anos 80, quando a qualidade total começou a se instalar no País, que hoje o senhor não escreveria?
Falconi - A única que eu mudaria, se pudesse reescrever meus livros, seria a ênfase à área financeira. Descobri com o passar dos anos que o equilíbrio financeiro é o grande norteador de qualquer esforço da empresa. Toda ação da empresa tem de resultar em algo financeiro. A nossa cultura, talvez seja uma influência religiosa, no fundo, nos faz ter vergonha de ter o lucro, de ganhar dinheiro. Na verdade, o lucro da empresa é o que realmente diz se ela está indo bem ou mal. Se uma empresa apresenta prejuízo, ela vai cortar empregos e fechar com o passar do tempo, trazendo miséria para a comunidade em que está inserida. Nós queremos empresas que tenham lucro, que tenham resultado, que possam crescer, gerar riquezas, gerar empregos. E isso é foco financeiro. O que vem, antes de qualquer coisa, é a medida do desempenho através das finanças. Por isso que eu falo que qualquer negócio, pode ser minúsculo, tem de ter um plano de vendas, um orçamento, um controle de caixa muito bem feito. O controle financeiro é uma regra básica. Se eu tivesse de reeditar algo que eu disse no passado, seria nesta linha.

A Notícia - E o indivíduo, o homem, dentro da qualidade total com foco financeiro, onde fica?
Falconi - Tudo que é feito na vida é feito para melhorar a condição de vida do homem. Quando falo em controle financeiro para gerar resultado, falo em gerar mais bens para todos nós consumirmos. Quando falo em ter resultado para gerar empregos, falo em gerar oportunidade para todos e acabar com a miséria. Tudo o que uma empresa faz é em benefício do homem.

A Notícia - Muitos órgãos públicos tentaram, no decorrer dos anos 90, implantar a qualidade total. Funcionou em algum lugar a qualidade total dentro do serviço público no Brasil?
Falconi - Os melhores exemplos de emprego de técnicas de gestão, evidentemente, estão no setor privado. Estou convencido de que esse esforço gerencial que as empresas fizeram nos últimos 15 anos foi vital para o próprio país. Hoje, o Brasil está sustentando uma crise financeira muito grande principalmente pelo desempenho do setor privado. O governo não tem contribuído com muita coisa. De qualquer maneira, alguns departamentos governamentais se interessaram na década de 90 pela qualidade total e muito timidamente fizeram alguma coisa, nada significativo.

A Notícia - A qualidade total brasileira se inspirou principalmente nos japoneses. Comparando hoje as empresas brasileiras com as japonesas, ainda somos aprendizes e eles professores?
Falconi - Estamos tendo uma experiência muito boa. Posso afirmar isso a partir do que vêem os consultores brasileiros que atuam com centenas de empresas no País e nos Estados Unidos, Canadá, América Latina e em oito países europeus. O que estamos fazendo no Brasil hoje é uma prática de gerenciamento de nível mundial. Não fica nada a dever a qualquer país do mundo. Nosso problema é governo.

A Notícia - É possível mexer no custo-Brasil, nascido da burocracia e da falta de infra-estrutura?
Falconi - Não sou político. Sei que existem impedimentos políticos para que as coisas sejam feitas. Não tenho dúvidas de que o atual governo gostaria muito de fazer uma reforma previdenciária bem feita e não conseguiu. Acho que eles gostariam de fazer uma reforma tributária bem feita e não conseguiram. Acho que eles gostariam de fazer uma reforma política e até agora não conseguiram. Existem forças reacionárias no Brasil que impedem as reformas, que impedem que esse país deslanche. Esse é o grande problema do Brasil, hoje. Nossos deputados, nossos representantes não votam as leis que têm de ser votadas. Anunciaram reforma previdenciária e reforma tributária, mas fizeram um arranhão, uma coisa de nada. Temos de ir muito mais profundamente.

A Notícia - O que ocorre na economia mundial realmente afeta o dia-a-dia de todos os empresários no País?
Falconi - O sistema financeiro mundial ficou muito nervoso porque a transferência de dinheiro entre as nações, entre os bancos, ficou instantânea. Antigamente, um político fazia uma declaração errada aqui e não tinha como mandar dinheiro para fora porque não existiam mecanismos para isso. Hoje, um sujeito faz uma declaração errada e saem do País US$ 2 bilhões num dia. Tudo ficou muito sensível e isso exige dos governos uma outra maneira de conduzir um país. Exige também que os empresários, não importa o tamanho, estejam antenados para o que acontece na economia mundial. Nesse mundo interligado, uma mudança nos Estados Unidos, por exemplo, pode afetar os negócios de inúmeros empresários em Santa Catarina.

A Notícia - É possível que o Brasil cresça sem depender tanto do sistema financeiro internacional, seguindo um caminho diferente daquele receitado pelo Fundo Monetário Internacional, como propõem vozes dissonantes da política econômica do governo?
Falconi - Quanto mais exportamos, quanto mais necessidade de dólares temos, mais o Brasil se liga ao sistema financeiro internacional. O Brasil hoje está intimamente ligado à economia mundial, e a notícia ruim disso é que somos uma pequena canoa navegando entre transatlânticos. Quando eles balançam um pouco, temos de enfrentar grandes ondas dentro de uma canoa. É mais ou menos assim. É sempre bom ter uma idéia das perspectivas da economia mundial para orientarmos nossos investimentos e recuos.

A Notícia - Quais as principais ameaças para a economia brasileira neste momento?
Falconi - As ameaças são duas: a China parar de comprar e os Estados Unidos aumentarem os juros. A China entrou comprando muito e elevou os preços de todas as commodities, base das exportações brasileiras. Só que os chineses devem frear um pouco o consumo para evitar inflação. E os Estados Unidos devem aumentar em meio ponto os juros, que hoje estão em 1% ao ano, para quebrar o repique inflacionário registrado no início de 2004.

A Notícia - A taxa básica de juros poderia ser menor no Brasil?
Falconi - Se o juro está alto é porque estamos doentes. O juro não baixa porque a política fiscal brasileira está errada. Política fiscal é simples: nós vamos gastar menos do que vamos arrecadar. Qualquer dona-de-casa pratica isso. Só que os governos, em todas as esferas, não. Fica todo mundo criticando o governo porque tem 4,25% de superávit primário. Sabe o que significa esse superávit? Uma mentira. Porque superávit primário é aquele superávit excluindo os encargos financeiros. Ora, bolas! Se o País deve e o País paga juros, então os juros são despesas. O que interessa não é superávit ou déficit primário. O que interessa é o superávit nominal, levando-se em conta o que se gasta com os juros. E, aí, temos um déficit de 3% do PIB. O Brasil arrecada 38% do que produzimos e pega mais 4% do PIB nos bancos a título de empréstimo. Os governos consomem dois dias e meio da nossa semana de trabalho e não entregam nada de volta. Como é que pode um país que gasta mais do que arrecada querer ter juro baixo? Infelizmente, não deveremos ver a médio prazo o "espetáculo do crescimento". Não existem condições para o início desse espetáculo.

A Notícia - Qual a receita indicada para o sucesso de qualquer empresário?
Falconi - O que vai de fato fazer com que suas empresas possam resistir às turbulências desse mundo hostil é o esforço que cada um pode fazer dentro dela. Vou dar um conselho de amigo: nunca esperem nada dos governos, porque nem governo federal, nem governo do Estado e nem as prefeituras têm dinheiro. Só podemos esperar algo dos nossos braços, não tem outro jeito. É cada um cuidar da sua empresa com dedicação, equilibrar receitas e despesas, criar controles orçamentários, cuidar dos clientes, estabelecer metas e trabalhar simples. É o único jeito. Esse esforço está sendo feito pelas grandes empresas e deve ser feita pelas pequenas também.

Fonte: Jornal A Notícia/SC27/06/2004

 
Enviar para um amigo Indique este site
 

 
Vicente Falconi Campos é consultor de grandes grupos empresariais brasileiros e orientador técnico do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial; Ph.D pela Colorado School of Mines (USA); Engº e Professor Emérito pela UFMG; Membro do Conselho de Administração da AMBEV; Membro do Conselho de Administração da SADIA; Designado Membro da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica pelo Presidente da República em 2001. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares. Único Latino-americano eleito como "Uma das 21 vozes do Século 21" pela ASQ - American Society for Quality.

 
 

Palestra: “Sistema de Gestão
com Foco Financeiro“

Download da Apresentação