O aumento do ritmo das exportações tem sido muito positivo para o Brasil. Foi possível pagar uma grande parte da dívida externa, eliminar a dívida interna atrelada ao dólar e constituir uma reserva razoável. Por outro lado, as tendências mundiais nas áreas energética e ambiental indicam que o Brasil poderá ser um grande exportador de energia (biocombustíveis), o que traz mais perspectivas de entrada de divisas e conseqüente valorização do Real. Este fato é uma ameaça à sobrevivência de alguns setores empresariais. São exemplos os setores de calçados, tecidos, cerâmica, etc. Falta aos Governos saber o que fazer para ajudá-los a sobreviver.
Qual a saída para estes setores? Deve haver algumas, mas penso que certamente uma delas será fugir para mercados mais sofisticados onde existe a exigência de produtos de design especial, qualidade excepcional e condições comerciais e de suprimento mais regulares, com atendimento a clientes bem feito. Isto exige que as empresas tenham um Sistema de Garantia da Qualidade de primeira linha. A inovação só é possível quando baseada nestes sistemas.
Um outro fato profundamente correlacionado com este problema é a baixa capacitação destes setores, que estão sendo ameaçados pela globalização, em inovação. Dou como exemplo um fato: um dia destes fiz uma visita de dois dias a uma grande e sólida empresa, para verificar algumas de suas linhas de produção e seus sistemas de inovação. Fiquei pasmo com o que vi. Linhas qualificadas na ISO 9001 mas totalmente despreparadas para enfrentar clientes muito exigentes. Creio que temos sido lenientes ao aprovar a qualificação de Sistemas de Garantia da Qualidade. A qualificação em ISO 9001 é uma carteira de motorista que não lhe permite dirigir na Fórmula 1, e, para entrar em mercados qualificados, é necessário saber dirigir Fórmula 1!
Precisamos ir além e saber implementar sistemas de alto nível de exigência. O que é necessário para isto?
Primeiro, é necessário ter um Diretor de prestígio na empresa e que esteja disposto a gerenciar toda a cadeia de produção, desde a concepção do produto até sua entrega ao cliente, tendo autorização para isto e se reportando diretamente ao Presidente.
Segundo, é necessário ter um padrão do Sistema de Garantia da Qualidade estabelecido e fazer de seu gereciamento um ato de cumprimento de padrões. Uma rotina.
Terceiro, é necessário ter padrões bem estabelecidos e que permitam não só uma boa comunicação entre a engenharia e a produção mas também que sirva como base para o controle de processos. Os procedimentos operacionais, atrelados aos padrões técnicos, devem servir de base à disciplina operacional. Mecanismos fool-proof devem ser empregados onde não é possível confiar na capacidade humana.
Quarto, é necessário ter grande capacidade de solução de problemas e fazer disto uma atividade contínua. Para isto deve-se ter os problemas constantemente listados e priorizados e suas respectivas metas cobradas no mínimo mensalmente.
Temos uma saída para o processo de globalização: entregar aos países mais pobres o que é fácil de fazer e avançar no que é difícil. Não tenho dúvidas de que esta será a saída para as empresas intensivas em mão-de-obra. No entanto, o caminho é difícil e tortuoso.