O Custo estabelecido pelo Projeto
10/4/2007


Os custos de uma empresa podem sempre ser reduzidos substancialmente.   Geralmente as pessoas que operam uma empresa não têm idéia precisa de quanto estes custos podem ser reduzidos, pelo simples fato de que não conhecem bem a sua natureza.   Hoje quero falar de um tipo de custo que é difícil de perceber, os custos determinados pelo projeto e que somente podem ser alterados por mudanças no próprio projeto.

Trabalhei na Acesita numa época em que estava sendo feita a expansão da empresa.   Quando entrei, em 1975, a empresa já estava em plena expansão e a concepção desta expansão havia sido feita numa época anterior à primeira crise do petróleo.   Todos os novos fornos de reaquecimento da empresa queimavam algum tipo de derivado do petróleo, sendo que um deles queimava óleo Diesel.   Nenhum destes fornos foi construído com câmaras de recuperação de calor dos gases de exaustão porque, naquela época, o óleo economizado não pagava o investimento nas câmaras.   Quando os fornos ficaram prontos já se constatava o erro, mas era tarde demais.   Os gastos em aquecimento eram exorbitantes e a coisa ficou ainda pior na segunda crise de petróleo em 1979.   Isto é um custo que foi determinado pelo projeto.   Pode-se tentar minimizar, mas o que se consegue é sempre muito pouco.   Só há uma maneira de reduzir substancialmente este tipo de custo:  alterar o projeto do forno e introduzir as modificações, só que então a coisa sai muito mais cara,  pois geralmente a produção tem que ser interrompida e as perdas podem ser muito grandes.

Este tipo de custo vemos todos os dias.   Existe um anel rodoviário em Belo Horizonte que é o "rei dos acidentes".   Quando quero ir do Bairro Belvedere para o Aeroporto ou vice-versa (roteiro freqüente para mim), os motoristas de táxi sempre me perguntam se eu quero ir pelo anel rodoviário ou pelo centro da cidade, pois muita gente tem medo do anel.   Realmente, observando a estrada vêem-se os maiores absurdos em termos de projeto:   entradas e saídas de veículos sem as devidas pistas de aceleração ou desaceleração;   pontos de ônibus logo após uma pista de entrada de veículos;  pontos de ônibus no lado aberto de curva;   estrada com três pistas passando por pontes de duas pistas (uma das pistas acaba repentinamente) e em curva, etc.   Uma armadilha atrás da outra!

O prédio onde moro foi construído com compartilhamento de gás, água fria e água quente, ou seja, cada condômino pode gastar à vontade que todos pagarão a mesma conta.   Resultado:   não existe o menor controle de consumo.   Com o cenário que antecipamos de crise energética e de água, teremos que refazer, mais cedo ou mais tarde, o projeto hidráulico do prédio.   Aliás, já deveria haver regulamentos para novas construções que determinassem a captação da água de banho e chuva para utilização secundária.   A portaria de meu prédio também foi construída para ser operada por dois porteiros.   Se no futuro quisermos ter apenas um,  teremos que alterar profundamente o projeto da portaria.

Enfim, exemplos como este mostram alguns custos desnecessários que as empresas enfrentam porque eles já foram assim estabelecidos no próprio projeto.   Por outro lado, bons projetos do passado deixam de sê-lo porque novas tecnologias foram criadas que viabilizam projetos mais simples e de custo operacional bem menor.   É preciso estar sempre atento e com olhar crítico para não se esquecer de que críticas ao projeto podem ser fonte de produtividade e que devemos atualizá-lo freqüentemente de tal forma a mantê-lo competitivo.

 
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Vicente Falconi Campos é consultor de grandes grupos empresariais brasileiros e orientador técnico do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial; Ph.D pela Colorado School of Mines (USA); Engº e Professor Emérito pela UFMG; Membro do Conselho de Administração da AMBEV; Membro do Conselho de Administração da SADIA; Designado Membro da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica pelo Presidente da República em 2001. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares. Único Latino-americano eleito como "Uma das 21 vozes do Século 21" pela ASQ - American Society for Quality.

 
 

Palestra: “A Invasão dos Bárbaros e as Decisões Empresariais de Hoje”

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