A variável tempo na economia

No final de 1998 o Brasil passava por uma necessidade aguda de dólares. Foi feita uma desvalorização cambial em meados de janeiro de 1999. Com o dólar próximo a dois reais, praticamente todos os produtos brasileiros tornaram-se competitivos. Muito embora a situação de transações correntes tenha melhorado substancialmente, continuamos com deficit comercial e a pressão sobre o dólar continua, ameaçando os índices inflacionários. As pessoas julgam, então, que a economia vai mal.

Tendo como base de raciocínio a Teoria Geral de Sistemas, perguntamos se, em nossa pressa, não estaríamos desconsiderando algumas diferenças fundamentais entre Sistema Financeiro e Sistema Econômico, bem como suas interações com os Sistemas Político e Social.

O Sistema Financeiro, que comanda o comércio de moedas e, portanto, o seu valor de troca (câmbio) e o seu aluguel (juros), é muito rápido, quase instantâneo. Ele é especialmente afetado pela abertura na movimentação de moedas pelo mundo (globalização) e pela tecnologia (informática e telecomunicações). Este Sistema, por ter como alavanca predominante a segurança (além da rentabilidade e liquidez), é muito susceptível às emoções do momento e, portanto, poderá ser, além de rápido, explosivo.

O Sistema Econômico, que consta principalmente da estrutura física de produção de produtos da sociedade, é lento por natureza. É lento construir uma fábrica para exportar, é lento vender um produto no exterior e acertar a logística de seu transporte, é lento desenvolver uma base de fornecedores, é lento treinar pessoas.

O Sistema Político, que regula o relacionamento entre as vários estratos sociais e formas de pensar e que afeta fortemente o Sistema Financeiro, é ainda mais lento e influenciado por interesses pessoais, grupais, regionais, etc. É muito lento, vagaroso mesmo, negociar e fazer o ajuste fiscal; é muito lento eliminar o déficit da previdência; é muito lento fazer uma reforma tributária, etc.

O Sistema Social é constituído pelas pessoas, suas crenças, seus valores, seus preconceitos, sua educação, sua história, etc.

Este sistema pode ser tão lento a ponto de ser impossível mudar certas crenças em apenas uma geração. Algumas crenças, nunca. No Sistema Social, que estabelece o Sistema Político, a escala de tempo pode ser de gerações (basta reparar no mundo os problemas milenares que dão origem às dezenas de guerras e escaramuças locais).

Evidentemente; todos estes sistemas interagem, tornando o resultado final de difícil previsão.

O Sistema Financeiro mundial é muito sensível às crises e responde rapidamente a estas, forçando novos patamares nas taxas de câmbio e juros internos ao país que, muitas vezes, pouco têm a ver com o desempenho de seu Sistema Econômico. A situação financeira de um país pode melhorar sem nenhum mérito de seus Sistemas Econômico e Político ou então piorar sem que nada tenha sido feito.

Por outro lado, Sistemas Político e Social instáveis e excessivamente lentos podem trazer distorções ao Sistema Econômico, com conseqüências danosas a longo prazo. No caso brasileiro, por exemplo, acreditamos que a demora em se estabelecer uma Reforma Tributária justa e simples está levando empresas de vários setores da economia à sonegação, com conseqüências danosas àquelas que se recusam a fazê-lo e trazendo uma carga tributária excessivamente elevada para o resto da sociedade. Esta prática confere às empresas sonegadoras uma competitividade que elas realmente não possuem, propiciam a sua expansão e, na eventualidade de um Ajuste Tributário, elas poderão não resistir e falir, trazendo outras conseqüências políticas, sociais, econômicas e financeiras. A Teoria Geral de Sistemas nos ensina que, por trás de cada desequilíbrio, existe uma conta a ser paga.

As interações sistêmicas são simultâneas. Distorções de longo prazo no Sistema Econômico podem levar a desequilíbrios no Sistema Financeiro, cuja velocidade de reajuste passa a depender, agora, do ritmo de tempo do Sistema Econômico. Um bom exemplo é o caso japonês. Aquele país, durante um longo tempo, manteve a sua moeda desvalorizada através de investimentos de bancos japoneses em títulos do Governo Americano. Esta medida no Sistema Financeiro trouxe, como conseqüência, uma crescente distorção no Sistema Econômico que se estruturava cada vez mais para exportar e, quanto mais exportava, maior era o superavit da balança comercial japonesa e maior a necessidade de investimentos dos bancos japoneses em moeda americana para manter o nível desvalorizado do yen (e aproveitar a diferença na cotação dos juros). Quando a pressão (desequilíbrio) aumentou até níveis insuportáveis e se iniciou a valorização do yen, o Sistema Econômico, não conseguindo mais exportar na mesma proporção e nem colocar internamente a sua produção, entrou em crise. O Sistema Financeiro, tendo que suportar as altas perdas em moeda americana, também se fragilizou e agora a sociedade terá que esperar o tempo necessário para que o Sistema Econômico outra vez se adapte a um novo patamar de equilíbrio.

Os dois exemplos citados acima são iguais em sua essência: a fragilidade do Estado em poder regulamentar adequadamente o Sistema Financeiro traz conseqüências desastrosas ao país por criar, ao longo do tempo, desequilíbrios que irão requerer, mais tarde, um longo tempo de ajuste com perdas para todos. O "pensamento sistêmico" nos ensina que não existem milagres, o que se ganha enganosamente hoje com desequilíbrios momentaneamente favoráveis, perde-se amanhã quando os sistemas voltarem a se equilibrar.

No Brasil assistimos a alguns desequilíbrios cíclicos nos últimos anos. Logo após o lançamento do Plano Real houve maior confiança na economia brasileira e um grande fluxo de dólares para o País. Estes dólares, somados ao nosso superavit comercial da época e aos recursos do programa de privatização, fizeram com que o dólar, inicialmente taxado a um real, caísse bastante e, não fosse a atuação do Banco Central, provavelmente teria caído mais fortemente (pela natureza rápida do Sistema Financeiro e não por uma necessidade matemática). Desta época para cá, o Sistema Econômico tem se estruturado em função das condições reinantes no Sistema Financeiro de certa abundância de dólares provenientes de investimentos diretos, empréstimos de empresas privadas, empréstimos públicos e privatizações. Levou alguns anos para que o Sistema Econômico atingisse seu estágio atual. Subitamente, no entanto, surgem crises internacionais e grande demanda por dólares. O Sistema Financeiro, em sua característica de muita rapidez, demanda imediatamente do Sistema Econômico aquilo que este só poderá dar depois de certo tempo de acomodação às novas condições. Os tão esperados superavites comerciais aparecerão, mas isto se dará vagarosamente pois esta é a característica do Sistema Econômico.

No entanto, sendo o Brasil um país que precisa desenvolver-se, é natural que seu Sistema Econômico demande poupança externa e muito em breve o dólar poderá estar, outra vez, em abundância. O real se valorizará e alguns produtos da pauta de exportação poderão perder a competitividade. Estes ciclos constantes não podem ser positivos para a economia.

Como resolver este problema de diferenças de tempo de resposta? Se impusermos limitações à velocidade do Sistema Financeiro com algum tipo de controle das transferências cambiais, o que seria uma atitude lógica, as perdas poderão ser ainda maiores. Dependendo do tipo de limitação imposta, a poupança externa, tão necessária, certamente desaparecerá e junto com ela os novos empregos e melhoria das condições de vida. Perderemos também um excelente mecanismo de pressão externa sobre nosso Sistema Político, no sentido de acelerar o ritmo das Reformas. Por outro lado, deixar o Sistema Financeiro flutuar ao sabor das necessidades mundiais pode trazer perdas substanciais ao nosso Sistema Econômico. É como se o nosso Sistema Financeiro fosse uma pequena canoa presa a navios (Sistemas Financeiros americano, europeu e japonês). Qualquer minúsculo balanço dos navios é emergência na canoa. A criação do euro trouxe proteção aos países europeus, que agora têm um Sistema Financeiro também de grande tamanho para suportar as flutuações sem impor demandas violentas aos seus Sistemas Econômicos e, por conseqüência, também aos Sistemas Políticos e Sociais.

O problema é novo e grande. Qual a solução? Uma reserva cambial enorme para vender dólares em caso de falta? Um superavit interno muito grande para comprar dólares em caso de muita oferta? Criar a moeda única na América Latina (teria escala suficiente?)? Acelerar a Alca e aderir ao dólar? Um Banco Central Mundial com função reguladora e estabilizadora? Precisamos discutir este problema e tentar encontrar uma solução que nos proteja mas que não nos isole do mundo. 

Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.

 
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Vicente Falconi Campos é consultor de grandes grupos empresariais brasileiros e orientador técnico do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial; Ph.D pela Colorado School of Mines (USA); Engº e Professor Emérito pela UFMG; Membro do Conselho de Administração da AMBEV; Membro do Conselho de Administração da SADIA; Designado Membro da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica pelo Presidente da República em 2001. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares. Único Latino-americano eleito como "Uma das 21 vozes do Século 21" pela ASQ - American Society for Quality.

 
 

Palestra: “A Invasão dos Bárbaros e as Decisões Empresariais de Hoje”

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