|
A
economia,
a globalização e a teoria geral de sistemas Passei os primeiros anos de minha vida
profissional muito interessado em Equilíbrio Químico de Sistemas Metalúrgicos
(Termodinâmica). Publiquei vários trabalhos sobre o assunto, bem como alguns livros e
apostilas. O tema me era encantador; dava-me a "sensação de poder" por
permitir-me prever, com certo grau de acerto, o que iria acontecer num forno metalúrgico,
numa corrida de um certo tipo de aço, dadas as condições de composição, temperatura e
pressão do ambiente. Orientei algumas teses de mestrado sobre o tema em empresas
siderúrgicas; algumas destas teses resultaram em sistemas de controle industriais em
utilização até hoje.
Uma coisa que logo se aprende em termodinâmica é que as
reações químicas só ocorrem em condições de desequilíbrio. Por exemplo: uma
explosão é uma reação química que ocorre de forma muito rápida devido a um elevado
desequilíbrio do sistema. Os fornos metalúrgicos nada mais são que "criadores de
desequilíbrio", de tal forma que as reações químicas de interesse econômico
possam ocorrer (de forma controlada). Se um sistema está em equilíbrio, nada acontece
(Por exemplo: as rochas estão em equilíbrio com o ar. Aí nunca haverá reação
química). No entanto, um sistema pode estar altamente desequilibrado e nada acontecer!
Por exemplo: as florestas só existem em presença de oxigênio do ar (alto
desequilíbrio) se ninguém "iniciar o fogo". Este é o paradoxo de sistemas
desequilibrados: você sabe que algo pode acontecer, mas não sabe se de fato isto
ocorrerá, sua velocidade ou quando.
Nos últimos quinze anos não tenho trabalhado mais com sistemas
metalúrgicos e sim com sistemas gerenciais. Por outro lado, não domino o comportamento
de sistemas econômicos, mas tenho como um dos meus hobbies ler tudo que aparece
sobre economia. O pouco que sei aprendi de jornais e revistas, mas aprendi com bons
professores como Paulo Guedes, Roberto Campos, Mario Henrique Simonsen, Gustavo Franco,
André Lara Rezende, Delfim Neto, Affonso Celso Pastore, Luiz Gonzaga Belluzzo, Maria da
Conceição Tavares, Mailson da Nóbrega, João Sayad, José Serra, Rubens Ricupero,
Luciano Coutinho, Paulo Nogueira Batista Junior, Luís Nassif, Miriam Leitão, Joelmir
Beting e outros. Assim, aprendi que o sistema econômico é um sistema como outro
qualquer, no qual todos os fatores influenciam as condições de equilíbrio e, portanto,
influenciam os fenômenos econômicos que decorrem de desequilíbrios do sistema (estes
"fenômenos econômicos" seriam equivalentes às reações químicas em sistemas
químicos ou metalúrgicos). Por exemplo: será que uma corrida a uma moeda de um país
não seria uma "explosão" devido a um grande desequilíbrio percebido pelos
agentes econômicos e que se inicia quando alguém decide "iniciar o fogo"?
Pelo que aprendi dos meus professores acima citados, vários
fatores afetam o equilíbrio de um sistema econômico: taxa de juros, taxa de câmbio,
balança comercial, déficit ou superavit público, carga e perfil dos impostos, nível de
endividamento público, nível de endividamento das empresas, desconfiança do mercado
quanto à estabilidade política, etc. Se formos pensar um pouco mais acabaremos por
descobrir que outros sistemas também importantes afetam o equilíbrio de um sistema
econômico: sistema político, sistema educacional, sistema de infraestrutura, etc. Agora,
se quisermos dar mais um passo adiante, verificaremos que, numa economia exposta ao mundo,
outros sistemas de outros países também afetam o nosso. Chegaremos então à conclusão
de que todos os sistemas se influenciam mutuamente e isto é a base da percepção
holística.
Isto talvez explique a grande dificuldade dos economistas em
fazerem previsões baseadas em fatores internos ao sistema econômico local. Elas só
funcionam para sistemas economicos razoavelmente fechados. Num ambiente globalizado os
fatores externos imprevisíveis e incontroláveis podem assumir proporção fundamental e,
naturalmente, os economistas têm condições limitadas de prever a influência de fatores
de outros sistemas mundiais em nosso sistema econômico, ainda mais quando fatores
emocionais podem potencializar aqueles fatores. Além do mais, desequilíbrios detectados
em outros sistemas mundiais podem não promover nenhum tipo de fenômeno econômico até
que alguém esteja disposto a "iniciar o fogo".
Acredito que o processo de globalização do mundo está mostrando
que o ser humano precisa aprofundar o seu nível de conscientização e conhecimento da
natureza holística dos sistemas. Na verdade isto é, hoje, uma condição de
sobrevivência da espécie humana e, portanto, adquire importância a Teoria Geral de
Sistemas como base geral para o desenvolvimento do conhecimento humano. Existe
conhecimento científico estabelecido sobre a Teoria Geral de Sistemas, onde despontam as
obras de Ervin Laszlo e Ludwig Von Bertalanffy.
Observando tudo isto eu, como leigo, me pergunto: muito embora
seja sempre útil, seria vital falar sobre "os efeitos da atual taxa de juros",
os "problemas do câmbio", o "nosso deficit comercial", etc.? Não
estariamos nós falando de fatores (meios), mas não necessariamente dos verdadeiros
problemas (fins)? Além de acompanhar estes fatores, não teríamos que estar
especialmente atentos também para os desequilíbrios no sistema que são os fatores
geradores dos fenômenos indesejáveis da economia? Não seria mais importante discutir
nossos desequilíbrios que são, de fato, nossas verdadeiras fragilidades ? Por exemplo: a
taxa de juros pode estar alta temporariamente para "segurar" algum
desequilíbrio do sistema (neste caso a sociedade estará pagando o preço de permitir o
desequilíbrio de seu sistema econômico). Por outro lado, poderemos, eventualmente, ter
nossa economia muito bem equilibrada e de repente algum fator novo ser acionado no Brasil
ou no exterior e, outra vez, estaremos no desequilíbrio (precisando ou não utilizar
algum fator para "segurar" o desequilíbrio, mesmo que temporariamente). Sou
levado a crer que a condição de máxima eficiência no aproveitamento da poupança
nacional é a maior proximidade possível da condição de equilíbrio dinâmico mais
desejável para o momento do País.
Mais um fator complicador: em sistemas químicos podemos falar em
equilíbrio, mas em sistemas sociais, onde interferem o fator humano, sua tecnologia, suas
emoções, suas necessidades vitais de sobrevivência, só se pode falar em
"equilíbrio dinâmico". Neste momento de nossa história, quando precisamos
inserir toda a população no processo econômico, temos que manter nosso "Sistema
Econômico" muito ativo (alta taxa de poupança - o que por si já é um tipo de
desequilíbrio, muito embora desejável para países pobres como o Brasil) e cada vez mais
robusto para resistir aos fatores externos de desequilíbrio (provocados certamente por
outros sistemas econômicos mundiais em processo de "reação" interna em sua
busca natural pelo equilíbrio). Esta robustez, me parece, poderia ser conseguida pela
atenuação de nossos próprios fatores estruturais internos de desequilíbrio
constituidos por: sistema previdenciário inviável; gestão pública cara, pesada e
ineficaz; impostos que incidem sobre meios e não sobre fins; sistema educacional
deficiente; favorecimentos; corrupção; infraestrutura descuidada; corporativismos de
toda natureza; incentivos anacrônicos ou injustos, etc. Reparem que a condição de
máxima robustez e equilíbrio é a condição ética (aquela que for a melhor para
todos).
Sob este aspecto encho-me de esperanças pois a globalização,
vista pela Teoria Geral de Sistemas, provocará, não só em nosso país mas em todo o
mundo, uma evolução dos costumes políticos e sociais, pela inevitável interligação
de todos os sistemas. As práticas aéticas terão que ser eliminadas pois causam
desequilíbrios e enfraquecem o Sistema Econômico. No Brasil estamos assistindo ao
gradual desaparecimento de alguns bancos, empresas, organizações públicas, algumas
práticas políticas do passado, favorecimentos, protecionismos, etc. São práticas
aéticas que estão sendo eliminadas. Os agentes aéticos não conseguirão sobreviver
neste ambiente holístico imposto pela interligação dos vários sistemas mundiais.
Para aqueles entre nós que querem pensar de forma holística e
ecológica, a globalização pode ser, às vezes, uma ameaça local mas é a grande
oportunidade mundial. Se o processo for bem conduzido prevalecerá a ética e o ser humano
será inevitavelmente beneficiado.
Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.
|