O conceito de excelência

Gosto muito de vinho. Gosto de sentir seu aroma, apreciar seu paladar e observar sua cor (principalmente naquele momento em que se serve o vinho na taça ainda limpa). É uma bebida interessante porque cada região produz vinhos diferentes que ainda variam em função da safra e de seu envelhecimento.

Lembro-me de que, há uns trinta ou quarenta anos atrás, vinho bom tinha que ser da França. Quem quisesse agradar uma visita numa refeição mais refinada tinha que servir algo de lá. Hoje o vinho francês já não está mais sozinho e existe concorrência também de vários países não europeus, como, por exemplo, do Chile, Austrália, África do Sul e principalmente da Califórnia.

Na época em que estudei nos EUA, os vinhos da Califórnia eram tidos como algo perto do vinagre. Eram ótimos para nós, estudantes, que podíamos fazer nossas festas de final de semana muito em conta (comprava-se o galão por algo em torno de cinqüenta centavos!). Aconteceu então um desastre na Califórnia, quando os vinhedos foram atacados por uma doença e todo o setor ficou, simplesmente, ameaçado de desaparecer.

Neste momento houve uma reação e algumas forças se uniram para salvar a indústria do vinho nos EUA. Reparem que houve um foco no produto: Vinho da Califórnia. Os produtores, sob uma liderança muito forte, conseguiram financiamentos facilitados pelo governo, dentro de um programa de recuperação do setor que envolvia o aperfeiçoamento gerencial e técnico. A história do vinho da Califórnia foi detalhadamente relatada numa série de reportagens mostradas no canal GNT.

Os vinhedos antigos foram extirpados e novas plantações foram feitas, utilizando-se tecnologia avançada com apoio de técnicos trazidos da França. Foi iniciado um amplo investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (estudava-se o tipo ideal de uva, a influência do espaçamento, da inclinação, da insolação, da umidificação, etc, na qualidade da uva e na produtividade do vinhedo) e em treinamento em gestão, tudo isto com a participação fundamental das universidades americanas, principalmente as da Califórnia. O resultado foi fantástico. Este é o tripé da Excelência: Liderança, Conhecimento Gerencial e Conhecimento Técnico.

Desde então tenho visitado, sempre que possível, os Vales do Napa e de Sonoma, ao norte de São Francisco e, de certa maneira, acompanhado a evolução daquela região (acho imperdível fazer os tours com aulas de degustação, nas quais se bebe o que há de melhor) . São vários produtores da região, cada um se esforçando para superar o outro em qualidade e buscando agradar o visitante (também acho imperdível fazer um piquenique numa das vinícolas que possuem espaço próprio para isto e ainda fornecem o vinho). É de impressionar a maneira como os vinhedos são tratados: todo o suprimento de água é, por exemplo, controlado por computador em função da evaporação, que é continuamente medida. O nível de tecnologia é muito elevado e o conhecimento muito avançado. Numa ultima visita que fiz à região, fiz o tour da Vinícola Mondavi, no Vale do Napa, e o técnico que nos acompanhou fez a seguinte afirmação: "os franceses estão vindo para cá pensando que o vinho daqui é bom porque o local é especial; mal sabem eles que o que faz a diferença é o nosso nível de desenvolvimento tecnológico e gerencial".

O moral da história é que hoje, além dos vinhos franceses, o vinho da Califórnia é um dos mais apreciados entre os aficionados do mundo inteiro. O vinho é tão bom que certas produções não chegam a ser exportadas porque o mercado interno as absorve integralmente (ainda recentemente eu trouxe na mala algumas garrafas de vinhos que nunca chegarão por aqui). A história é simples e pode ser repetida: se uma região apresenta condições básicas de competitividade para um certo produto, por que não trabalhar esta região do mesmo jeito, procurando incentivar os produtores?

Às vezes uma pessoa poderá pensar que isto é comum no Brasil, pois boas coisas "aconteceram" em certas regiões como, por exemplo, a indústria eletrônica que floresceu em torno da Escola Técnica de Eletrônica de Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais. Muito embora este caso seja meritório, não é disto que estamos falando, pois neste caso os meios vieram antes dos fins (deu certo como poderia não dar e a SUDENE, no nordeste brasileiro, é o grande exemplo da contra-excelência, dos meios antes dos fins). Buscar a excelência é antes de tudo focar no produto e dizer: "vamos fazer o melhor queijo do mundo em Minas Gerais". Depois disto entra-se com os fatores de excelência.

O que foi feito com o vinho da Califórnia pode ser feito com qualquer produto, em qualquer lugar, desde que haja fatores de competitividade e se tenha vontade e liderança. Basta que se dê o apoio financeiro ao produtor nos anos iniciais, apoio tecnológico intenso não só em equipamentos mas principalmente na contratação dos melhores técnicos do mundo na especialidade, viagens a regiões e outras empresas produtoras, envolvimento das universidades para pesquisar nas condições da região, desenvolvendo novos conhecimentos técnicos que serão vitais para se conseguir maior qualidade e produtividade. Além deste apoio técnico, sabemos que também é necessário o apoio gerencial. Estas são as bases da excelência em qualquer lugar do mundo e em qualquer situação.

No Brasil certamente podem ser encontrados exemplos isolados deste tipo de desenvolvimento e o caso da EMBRAER certamente será um deles. O Ministério da Aeronáutica teve um papel vital em sua formação, bem como o conhecimento gerencial e técnico (este último fortemente baseado no ITA-Instituto Tecnológico da Aeronáutica). Não tenho dúvidas de que, neste caso, o foco era fazer o avião brasileiro de combate.

Tenho falado deste assunto de excelência com alguns políticos que encontro, mas sinto que os ouvidos ainda não estão preparados. Também sou de opinião de que o Estado deve ser pequeno e essencialmente regulador. No entanto, acredito que deve, isoladamente, intervir de forma consciente para formar áreas de excelência em nosso País. Se alguns estados da Federação decidissem apoiar uns dois ou três produtos, poderíamos, rapidamente, focalizar as pesquisas das universidades brasileiras em assuntos de nosso interesse imediato e ganhar competitividade em produtos nos quais poderemos ser os melhores do mundo. Por que não competimos com a porcelana Norytake do Japão ou com a "Bone China" da Inglaterra, já que temos boa matéria-prima? Por que não produzimos as melhores frutas do mundo no Nordeste, já que temos sol e trabalho disponível? Por que não produzimos a melhor carne ou o melhor queijo, já que temos terra em abundância? Ou o melhor couro e produtos derivados pelo mesmo motivo?

O Conceito da Excelência pode ser adotado também em nível empresarial. Recentemente a Cia. Cervejaria Brahma fez um investimento (muito baixo, diga-se de passagem) em conhecimento técnico num programa chamado "Boinas Verdes", que visa a trazer os melhores técnicos do mundo na produção de cerveja para ensinar aos nossos técnicos jovens. Somado a isto, nos últimos anos esta empresa também tem investido em conhecimento gerencial de forma ampla para todas as pessoas. Os resultados têm sido excepcionais.

O Conceito da Excelência deveria dominar nossos líderes governamentais e empresariais. Podemos transformar regiões e empresas rapidamente através deste Conceito. A receita é mesmo muito simples: Liderança, Conhecimento Técnico e Conhecimento Gerencial.

Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.

 
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Vicente Falconi Campos é consultor de grandes grupos empresariais brasileiros e orientador técnico do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial; Ph.D pela Colorado School of Mines (USA); Engº e Professor Emérito pela UFMG; Membro do Conselho de Administração da AMBEV; Membro do Conselho de Administração da SADIA; Designado Membro da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica pelo Presidente da República em 2001. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares. Único Latino-americano eleito como "Uma das 21 vozes do Século 21" pela ASQ - American Society for Quality.

 
 

Palestra: “A Invasão dos Bárbaros e as Decisões Empresariais de Hoje”

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