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Gerenciamento e
desenvolvimento tecnológico
Estava folheando a revista Veja de 18/11/98 quando deparei com um
belo anúncio de geladeiras Brastemp. No final do anúncio lá estavam enfileiradas cinco
geladeiras, destacando-se, no centro, o modelo Zyrium, com um design lindo e inigualável.
Fiquei emocionado e devo confessar que também fiquei muito orgulhoso, pois aquela
geladeira tem uma história muito especial.
Há alguns anos atrás uma equipe nossa estava em
pleno trabalho no Grupo Brasmotor quando o Coordenador do Programa GQT (Gestão pela
Qualidade Total) me falou que estava tendo problemas na fábrica de geladeiras da
Multibrás em São Bernardo do Campo. O diretor da fábrica, Sr. Batista, não queria
saber de programas de GQT. O motivo decorria de problemas tecnológicos e operacionais que
a fábrica experimentava e que estavam causando prejuízos pesados à empresa.
Fui à fábrica e tive uma conversa muito boa com o
Batista, que acabou se tornando um grande amigo meu. Fiz a ele um desafio: ele nos daria
um setor problemático da fábrica para implementar um programa de GQT e, em seis meses,
atingiríamos a meta que ele nos colocasse. Prometi a ele que, se isto não acontecesse,
nunca mais voltaríamos lá; ele teria paz absoluta... Ele topou e, quando eu já ia
saindo de seu escritório, me chamou e disse: "Falconi, posso acrescentar mais um
setor?" Resumo: topamos reduzir refugos numa linha de produção de 6% (índice que
representava um período de crise) para 0,5% em seis meses e aumentar a produção do
Processo Zyrium de 1.500 portas/mês para 15.000 portas/mês dentro de um ano!
Este Processo Zyrium de fabricação de portas é
inovador, tendo sido totalmente desenvolvido pelos engenheiros brasileiros da Multibrás,
comandados pelo Eng. Sodário, constituindo um motivo de orgulho para todos nós. O
processo permite design arrojado e inigualável de geladeiras e sua tecnologia é
forte candidata a fornecer o produto mundial da Whirlpool Corporation, acionista
majoritário da Multibrás. Mas naquela época não estava dando certo. Era um
investimento de 30 milhões de dólares até então sem retorno.
Após o desafio do Batista começamos a trabalhar. A
equipe de liderança do projeto era constituída pelo Edson Mauri da FDG* e por Batista,
Rangel, Gerson, Evandro e Osmar da Multibrás. Os refugos caíram imediatamente e, ao
final de seis meses, eles tinham atingido a marca de 0,14%. Hoje já está bem abaixo
disto.
O Processo Zyrium nos deu grandes lições. Começou
a melhorar mês a mês mas, de vez em quando, apresentava alguns problemas típicos de
projeto novo, que tinham de ser imediatamente atacados pela equipe do Eng. Sodário e pelo
pessoal da manutenção e operação. Quanto mais se melhorava o processo, mais apareciam
outros problemas, decorrentes da intensidade e velocidade com que estava sendo conduzido.
A cada problema, a equipe, disciplinadamente, utilizava os métodos gerenciais
enriquecidos pelo conhecimento técnico do processo e, passo a passo, em nove meses,
chegaram às 15.000 unidades /mês. A última notícia que tive já dava conta de uma
produção acima de 18.000 unidades/mês.
A grande lição do Processo Zyrium é que o
desenvolvimento de tecnologia é muito dependente da habilidade gerencial. Uma coisa é
projetar um produto e um processo e outra é colocar este processo em marcha e o produto
no mercado. Na segunda etapa, o projeto, além da engenharia, depende muito de pessoas da
operação e da manutenção. Um erro de procedimento operacional por um operador mal
treinado, um elemento mal calibrado ou uma injetora entupida podem colocar tudo a perder.
Outra lição aprendida com o Processo Zyrium é que
o desenvolvimento de novos produtos e processos exige, além da competência gerencial e
técnica, também obstinação e fé, ou seja, liderança. Não posso me esquecer de que,
naquela época, convidei um Coordenador do Programa de GQT de uma outra unidade do mesmo
Grupo para visitar a fábrica de São Bernardo e aprender, na prática, algumas
peculiaridades do gerenciamento de processos. Seu Chefe lhe disse: "não vá lá
porque este processo é um fracasso". Tanto este Coordenador quanto seu Chefe
perderam uma excelente oportunidade de crescer profissionalmente. Há pessoas que pensam
que, só porque um novo processo "não deu certo" na primeira rodada, ele é um
fracasso. Um líder nunca pode pensar assim.
A última, porém não menos importante, lição
fornecida por esta experiência com a fábrica de São Bernardo do Campo foi que uma
consultoria deve sempre se iniciar por uma meta. Esta meta significa um comprometimento
entre as partes e a força para uma liderança efetiva. No livro "Gerenciamento da
Rotina" já havíamos, há muito tempo, dado o suporte teórico para isto, mas a
vivência prática desta verdade tem sido de singular importância para a sobrevivência
da FDG*.
Existem certas lições que não são aprendidas em
livros ou bancos escolares e que somente a vida ensina. Aqueles que viveram e acompanharam
esta história dentro da Multibrás aprenderam muito de desenvolvimento tecnológico e
certamente estão mais fortes para outros empreendimentos desafiantes da empresa no
futuro.
A Multibrás, detentora da marca Brastemp, continua
num excelente ritmo de desenvolvimento e é uma de nossas melhores e mais aplicadas
clientes, além de ser uma empresa instituidora de nossa FDG*. Os produtos
mostrados na revista Veja apenas refletem todo este trabalho de desenvolvimento de seu
pessoal ao longo dos anos. Parabéns à empresa pelos seus novos produtos e pelo seu
exemplo ao País. Nós, da FDG*, somos gratos por estar tendo a chance de
ser parte deste grande esforço. Aquela atraente e inigualável geladeira do anúncio é,
também, orgulhosamente, um pouquinho nossa!
Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.
** Por orientação do NCCB - Novo Código Civil Brasileiro, a FDG é agora uma Instituição de caráter puramente assistencial, apoiando gratuitamente escolas públicas e hospitais.
Os serviços antes realizados pela FDG são agora conduzidos pelo INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial (www.indg.com.br). |