As crises da globalização

Outro dia destes eu estava num aeroporto e me encontrei com um amigo empresário, companheiro na Gestão pela Qualidade Total e grande exportador. Enquanto esperávamos o avião atrasado, puxei o assunto do momento: "Como é, desvalorizamos ou não o Real?" perguntei, para iniciar o papo. Ele me falou: "Olhe professor, se fizermos uma boa Reforma Tributária tenho certeza de que não precisaremos mexer na taxa de câmbio atual. Esta reforma vai nos dar de 10 a 12% de vantagem cambial e isto é tudo que precisamos para virar o jogo". Aí, ele abaixou a cabeça, para esconder um pouco o que iria falar, e "conspiratoriamente" disse: "Professor, isto para não falar nos ganhos anuais de produtividade que estamos tendo, não é?".

A conversa continuou e para mim encontros como este são verdadeiras aulas de vida. A coisa que mais gosto é conversar com quem faz; é bom para contrabalançar as leituras de idéias de quem nunca fez. É bom raciocinar com os pés fincados na realidade presente.

Fico pensando: "por que nossas empresas estão ficando cada vez mais fortes e o País enfrenta dificuldades nas transações externas?". Em fevereiro de 1998 publiquei na Internet uma mensagem intitulada "A Economia, a Globalização e a Teoria Geral de Sistemas". Naquela mensagem falei dos desequilíbrios dos sistemas econômicos das várias nações e do processo de globalização visto como uma interação forçada destes vários sistemas. Num processo interativo como este os sistemas tendem a entrar em equilíbrio uns com os outros, um equilíbrio global. Este processo de globalização pune fortemente aqueles sistemas altamente desequilibrados.

O sistema econômico brasileiro está desequilibrado. Temos um elevado déficit fiscal (os governos federal, estadual e municipal gastam muito mais do que ganham), temos um sistema tributário que pune o trabalho e a produção, temos um sistema previdenciário injusto e inviável (régias aposentadorias públicas contrastadas com um sistema previdenciário decadente, deficitário e inviável para o empregado de empresas privadas), etc. São praticas aéticas pois beneficiam poucos e nos prejudicam a todos.

Não seria muito mais lógico equilibrarmos antes o nosso sistema econômico pela eliminação das práticas aéticas remanescentes dos privilégios das elites urbanas do passado e depois, então, fazermos os ajustes econômicos como recomendados pelos textos de economia? Por que promover uma desvalorização cambial agora, como recomendado por vários experts? Isto, na realidade, é apenas mais uma prática aética, pois todos estaremos mais uma vez pagando a conta de nossos desequilíbrios. Seria também uma solução fácil de quem não deseja enfrentar os detentores de privilégios, que se encontram muito bem entrincheirados e seriam adversários muito dificeis, mesmo em cima da crise.

Temos que ir às causas fundamentais do problema se queremos construir um novo País. O setor privado, por força das circunstâncias, está, a duras penas, fazendo o que tem que ser feito e se fortalece a cada dia. O setor público não o fez, talvez porque prevalecesse a idéia de que "governo verga mas não quebra". A globalização, para o nosso bem, está provando o contrário.

Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.

 
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Vicente Falconi Campos é consultor de grandes grupos empresariais brasileiros e orientador técnico do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial; Ph.D pela Colorado School of Mines (USA); Engº e Professor Emérito pela UFMG; Membro do Conselho de Administração da AMBEV; Membro do Conselho de Administração da SADIA; Designado Membro da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica pelo Presidente da República em 2001. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares. Único Latino-americano eleito como "Uma das 21 vozes do Século 21" pela ASQ - American Society for Quality.

 
 

Palestra: “Sistema de Gestão
com Foco Financeiro“

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