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Desemprego e
miséria
Há anos, quase diariamente, viajo pelo
Brasil. É um país enorme, com terra suficiente para alimentar algumas centenas de
milhões de pessoas. Certa vez um amigo fez um comentário contundente enquanto
viajávamos pelo Japão numa de nossas excursões: "a faixa litorânea do
Nordeste brasileiro, chamada "Zona da Mata", é maior que o Japão! Além disto,
tem terra excelente, chove regularmente e, se bem aproveitada, alimentaria, por si só,
todo o povo brasileiro". Cada afirmação sobre o Brasil nos faz pensar (o
Japão tem 85% de seu território montanhoso e inútil para a agricultura. No entanto,
alimenta seu povo de 130 milhões de pessoas).
Vivemos num país sem ódios
religiosos ou étnicos, sem problemas fronteiriços, sem ameaças da natureza como
tremores de terra, furacões ou nevascas. Por que não somos ricos? Por que temos
Desemprego e Miséria?
Por mais que pense sobre o assunto
não consigo encontrar outra resposta : sempre fomos incapazes de tirar desta terra,
potencialmente rica, o necessário ao nosso sustento como povo civilizado.
Tenho observado três tipos de
respostas a estas perguntas: a política, a egoísta e a consciente.
A "resposta política"
procura tirar partido de nossos problemas para seus beneficiários em sua luta pelo poder.
Não propõe uma solução, mas chama para si o monopólio das boas intenções e da
inteligência, prometendo o paraíso na Terra, atribuindo a "FHC" todos os
problemas nacionais. É contra todas as soluções propostas e particularmente aquelas que
visam a acabar com o empreguismo estatal, fonte principal do descalabro na utilização
dos recursos públicos.
A "resposta egoísta"
é a favor de todas as reformas, "contanto que não se mexa nos privilégios de seus
formuladores". A Reforma Tributária é torpedeada pelos estados e municípios que
perderão renda. As Reformas Administrativa e Previdenciária são torpedeadas pelos
funcionários públicos que mantêm um privilégio de salário médio e aposentadoria
incompatíveis com o sentimento de pátria.
A "resposta
consciente" é aquela que percebe que existem muitas ações que conduzem à
criação de empregos, mas a maior alavanca é, de longe, o crescimento econômico.
Não existem outros milagres.
De fato, só o crescimento
econômico poderá inserir toda aquela parcela da população isolada na miséria e os
desempregados na economia formal brasileira. O desemprego no Brasil é especialmente
sensível ao crescimento econômico, pois cada percentual de crescimento gera emprego nos
três setores da economia: primário, secundário e terciário.
O crescimento econômico é feito
com recursos que devem ser economizados e que são denominados "Taxa de
Poupança" (parcela poupada em relação ao PIB). Esta poupança se origina de três
fontes: setor privado, setor público e do estrangeiro. O setor privado brasileiro tem
dado a sua contribuição, muitas vezes de forma dramática, e tem sido, inclusive, o
responsável pelo inusitado comportamento positivo da economia brasileira por ocasião do
reajuste cambial. O capital estrangeiro tem fluído regularmente para o País mesmo diante
de circunstâncias de instabilidade. No entanto o setor público, Federal, Estadual e
Municipal, nas três esferas de poder (Executivo, Legislativo e Judiciário), tem
contribuído de forma altamente negativa para o descontrole de suas contas. Este ano
batemos todos os recordes de "Despoupança Pública", isto é, o Estado, além
de não poupar, ainda utiliza a nossa poupança para cobrir as deficiências de suas
próprias contas. Este descontrole estatal entra, com toda descompostura, na área da
irresponsabilidade, como ficou claro para todos nos exemplos do triste caso dos
precatórios, das máfias de algumas prefeituras em São Paulo, da CPI da Justiça, da CPI
do Orçamento, etc.
Como o Estado consome nossa
poupança, ele cria as pré-condições para o desemprego.
Se nossos políticos quisessem, de
fato, aumentar a oferta de emprego, estariam lutando por todas as iniciativas que visassem
a reduzir o gasto público (inclusive a redução substancial do quadro de pessoal)
através da Reforma Administrativa. Nossos políticos deveriam também fazer umas contas e
perceber que não será possível arrumar as contas públicas e aumentar a poupança sem
fazer a Reforma da Previdência (talvez devêssemos utilizar o resto de nossas empresas
estatais como lastro de um novo Sistema de Previdência Privada que assumisse os encargos
previdenciários do Estado). Talvez devêssemos pensar que uma Reforma Política se coloca
também entre as prioridades da Nação.
Se queremos eliminar a miséria e o
clamor do desemprego, tirando desta terra aquilo que ela pode facilmente dar, temos que
aumentar a Taxa de Poupança Nacional para algo perto de 30%, o que poderá gerar um
crescimento de, no mínimo, 7% ao ano. Em pouco tempo erradicaríamos o desemprego e a
miséria, não só do Brasil mas de toda a América do Sul pela abertura do mercado
regional do trabalho. O resto é chover no molhado.
Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.
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