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Entre
o bom senso e as ciências gerenciais
Saber aplicar técnicas
de gerenciamento avançadas é uma ferramenta valiosa para os
resultados dos negócios
"Os fatores tradicionais de
produção - terra, mão-de-obra e até dinheiro, pela sua mobilidade -
não mais garantem vantagem competitiva a uma nação em particular. Ao
invés disto, o gerenciamento tornou-se o fator decisivo de produção".
Peter F. Drucker
Esta frase de Drucker traduz todo o nosso
sonho de buscar para o Brasil o que existe de melhor em gerenciamento, na
esperança de que isto possa contribuir substancialmente para a
eliminação da pobreza e da miséria e para a construção de uma vida
melhor para todos. Esta tem que ser a luta de nossas vidas.
A consciência do verdadeiro significado
de gerenciamento, apesar de todo o esforço que vem sendo empreendido nos
últimos 15 anos em nosso País, ainda é muito baixa. Na maioria dos
casos, as pessoas ainda pensam que "gerenciamento é bom senso".
Creio que desde o século XVI já se lutava contra a "turma do bom
senso" pois Descartes, em seu pequeno livro "O Discurso do
Método", já dizia que "o bom senso deve ser o bem mais bem
distribuído da face da terra, pois ninguém deseja ter quantidade
maior do que a que já possui".
É interessante observar o significado da
palavra método. Ela tem sua origem no grego e é a soma das palavras meta
e hodós. Meta significa "resultado" e hodós
quer dizer "caminho". Portanto, método significa: "caminho
para resultados". É muito mais fácil chegar a resultados
excepcionais se você já conhece o caminho, não?
As coisas estão mudando rapidamente
nestes últimos dez anos: ou se toma conhecimento dos métodos e das
técnicas utilizadas (para a redução de custos a valores impensáveis,
para o desenvolvimento de novos produtos, para o controle de processos,
para a prevenção de acidentes de toda natureza, etc.), ou se levará, com
todo o "bom senso" do mundo, a empresa à derrota.
Como "gerenciar é resolver
problemas" ou como "gerenciar é alcançar resultados" (o
que é o mesmo), julga-se que uma pessoa é um bom gerente não
necessariamente pelo que sabe, por sua capacidade de falar, por sua pose,
por sua filiação ou por seu relacionamento político, mas sim por sua
capacidade de atingir resultados.
Muito embora em seus princípios pouco
tenha sido mudado, o gerenciamento (ciência para alcançar resultados)
vem avançando muito. A tecnologia de informática provocou profundas
modificações nesta ciência e tem progressivamente nos levado a enxergar
o gerenciamento cada vez mais ao longo de processos e de forma sistêmica.
Além disto, a existência de computadores de velocidade cada vez mais
elevada e de notebooks leves e de alta capacidade possibilitou o
desenvolvimento e utilização de softwares avançados de
estatística, controle de projetos, simulação, etc, nas frentes de
trabalho e por meio de várias pessoas.
Hoje, até planejamento
estratégico já é realizado com a ajuda de softwares. Existem grandes empresas brasileiras nas
quais todos os funcionários têm, no mínimo, o segundo grau completo e
vários deles fazem curso superior à noite. Quando estas pessoas são
treinadas em métodos de gerenciamento (solução de problemas) avançam
tanto que já presenciamos grupos de operadores de máquinas resolverem
problemas utilizando métodos e técnicas desconhecidos pela grande
maioria dos engenheiros brasileiros e trazendo substanciais economias para
suas empresas. Já vimos economias trazidas por grupos de operadores de
máquinas superiores a R$ 2 milhões por projeto. Algumas
empresas brasileiras já possuem milhares de operadores treinados neste
nível. A empresa acaba por se tornar "um verdadeiro trator de
competitividade".
Não consigo mais conceber engenheiros
que não tenham domínio destes métodos e ferramentas em nível cada vez
mais profundo. É exatamente a associação destes métodos e técnicas
com o conhecimento da tecnologia dos processos e do negócio, conduzidos
por uma firme liderança, que propicia o alcance de metas cada vez mais
desafiadoras. O líder não tem que ser, necessariamente, um especialista
nestes métodos e técnicas.
Uma empresa é constituída para servir a
um determinado mercado. Muitas vezes seu fundador percebeu estas
necessidades e estabeleceu o negócio, lucrando e crescendo. Os anos
passam, o fundador morre ou se aposenta, o mercado muda radicalmente e
tudo permanece como antes. Este é o caminho mais seguro para o prejuízo
e a falência. É necessário que cada negócio seja constantemente
reestruturado e as pessoas devem saber como fazer isto.
Muitos de nós ainda não perceberam as
profundas mudanças que estão ocorrendo à nossa volta e a velocidade com
que elas se desenvolvem. Existem empresas que trabalham com rapidez,
outras que fazem o que tem que ser feito, mas num cuidado e numa velocidade
ainda insuficientes para a realidade de hoje e outras que já estão
condenadas, não necessariamente por seus resultados atuais, mas pela
indecisão com que conduzem o desenvolvimento de seus funcionários e a
busca de resultados excepcionais. Nas realidades impostas por uma economia
global, ou somos os melhores do mundo ou estamos fora do páreo. Para ser
o melhor não basta o bom senso, pois, como observou Descartes, isto todos
já têm o bastante. É necessário ir além e levar todas as pessoas da
empresa a "aprender fazendo" todos os métodos e técnicas que
são necessários para atingir os resultados desejados. Lembre-se de
Descartes: bom senso o seu concorrente também tem.
Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.
Matéria publicada na
revista Economia do Estado de Minas, nº 38, junho/2001.
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