|
A
arte de desenvolver pessoas
O grande desafio das
áreas de Recursos Humanos é levar aos profissionais o conhecimento
necessário para atingir resultados excepcionais
A função de Recursos Humanos nas
empresas tem evoluído muito nestes últimos anos, principalmente no
Brasil. A evolução mundial tem sido no sentido de enfatizar o
gerenciamento da absorção e difusão do conhecimento nas empresas,
essencialmente a gestão do "processo de aprendizado": a empresa
como escola. Não se fala em outra coisa. Podemos dar a isto o nome de
"Gestão do Conhecimento", ou outro qualquer, mas o fato é que
o grande desafio hoje é levar às pessoas o conhecimento necessário para
que resultados excepcionais sejam alcançados.
No Brasil, a estabilidade da moeda e a
abertura da economia trouxeram uma nova realidade no relacionamento
capital-trabalho. A função de RH, que foi, no Brasil, profundamente
absorvida por este tema em toda a sua história, passa agora por profundas
modificações, tendo que responder às necessidades das empresas de
melhorar, de forma inusitada, seus resultados. Os desafios são imensos.
Os ganhos de produtividade da economia
brasileira têm sido grandes na década de 90 por imposição da abertura
do mercado e aparecimento de produtos de alta qualidade e baixo preço.
Esta década foi especialmente importante na difusão do conhecimento
gerencial na sociedade brasileira. Inicialmente este tipo de conhecimento
chegou entre nós no bem-sucedido Movimento pela Qualidade. Ao longo da
década, houve uma grande evolução e hoje várias empresas brasileiras
já estão praticando um gerenciamento de "Classe Mundial".
Tem sido muito importante a evolução da
consciência de que existe um Sistema de Gestão cuja função é melhorar
os resultados da empresa. Tem sido um grande desafio para a função RH
promover o desenvolvimento deste Sistema dentro das empresas.
Em muitas empresas brasileiras já se
sabe que existe uma relação direta entre "Planejamento
Estratégico" e "Operação". Já não se procuram modismos
e nem se foge deles: queremos apenas desenvolver, cada vez mais, os nossos
Sistemas de Gestão. Se algo de novo aparece, vamos estudar e avaliar: se
for melhor do que o que já praticamos, substituímos, mas mantemos o
corpo principal do Sistema de Gestão e não deixamos de fazer outras
coisas também importantes que já vínhamos fazendo. Ficamos mais
maduros!
Esta consciência da abordagem sistêmica
trouxe à função RH um desafio adicional: ela própria deve ter o seu
sistema com um foco definido. Nesta hora é essencial a contribuição da
Psicologia Humanística de Abraham H. Maslow e o seu "Processo
Cognitivo". O conhecimento deste processo torna possível equacionar
as ações de RH no sentido de atender à grande exigência das empresas
nos dias de hoje: melhorar seus resultados de forma dramática e rápida.
A eficiência de um setor de RH deve ser medida pela capacidade de
atingimento de metas das pessoas. A partir daí é possível criar todo um
conjunto de indicadores para avaliar a eficácia das ações de RH.
O "Processo Cognitivo" de
Maslow nos ensina que o aprendizado deve acontecer sempre na direção de
uma meta a ser atingida, de um resultado a ser alcançado. A aquisição
de conhecimento acontece de forma natural quando parte de um interesse
imediato. É exatamente este interesse de alcançar a meta (daí o papel
fundamental do líder) que faz com que as pessoas busquem os recursos
necessários. Estes recursos devem ser disponibilizados mas não se deve
dar meios às pessoas sem que elas os busquem para atender a alguma
necessidade!
Além deste aprendizado focado em
resultados, existe um outro ponto de fundamental importância para a
formulação de programas de treinamento: o aprendizado deve acontecer, em
sua grande extensão, pela prática: "aprender fazendo". Temos
assistido a reuniões, freqüentadas por pessoas muito bem formadas, nas
quais são cometidos erros primários, alguns deles muito caros para as
suas empresas.
Existe uma boa parte da educação que
uma pessoa pode adquirir em sala de aula. No entanto, grande parte do
conhecimento necessário às obrigações do dia-a-dia é adquirido na
própria prática da empresa com a ajuda de companheiros mais experientes
ou de consultores especializados que saibam fazer e não somente ensinar.
Se esta oportunidade não é apresentada, a pessoa não só perde em
desempenho, como deixa de sedimentar outros conhecimentos preciosos
adquiridos em sala de aula. Por melhor que tenha sido a formação de uma
pessoa, por mais titulada que seja, a prática do dia-a-dia poderá
multiplicar ou reduzir esta capacitação. Nosso
lema no preparo das pessoas para melhor desempenho dentro das empresas
deveria ser: "Aprender fazendo e focado em resultados".
Existe ainda uma contribuição que se
espera dos profissionais de recursos humanos: quebrar o medo ou o excesso
de zelo das pessoas dentro das empresas. Se queremos que as pessoas
aprendam focadas em resultados, temos que, primeiro, conhecer as lacunas
das empresas, ou seja, as grandes oportunidades de ganho (ou quanto se
está deixando de ganhar).
Como é difícil explicitar as lacunas!
Pergunte ao diretor comercial quanto a empresa ganharia se a qualidade do
produto melhorasse: ele resiste em explicitar o número certo (geralmente
gigantesco) para não ferir o diretor industrial ou o diretor superintendente.
Pergunte ao gerente da fábrica quanto ele está deixando de produzir
(quando comparado com desempenhos de fábricas similares) e ele mudará de
assunto para não magoar o pessoal de manutenção ou o seu diretor industrial.
Isto tudo atrasa a nossa luta em busca de produtividade e excelência
mundial. Não são fáceis os novos
desafios de RH!
Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.
Matéria publicada na
revista Economia do Estado de Minas, nº 41, setembro/2001.
|