|
A
inovação contínua
As organizações devem
se atualizar diariamente, estabelecendo novas funções a partir das
necessidades das pessoas e eliminando mecanismos ultrapassados
Creio que todos nós tememos que a
recente crise nos Estados Unidos possa levar a uma solução apressada de
um problema desconhecido, pela utilização de meios inadequados. Em menor
escala, isto também ocorre, todos os dias, em empresas e governos. Os
meios estão sempre desconectados dos fins. Inovar é promover este
ajuste.
Em nossa vida cotidiana isto é muito
mais comum do que se pode imaginar. Lembro-me de que, em meus anos de
universidade, não era raro ficar procurando projetos para utilizar os
equipamentos de pesquisa já existentes. Dentro das empresas e dos
governos existem processos inteiros, cheios de gente e equipamento caro,
ocupando espaço precioso e cumprindo função que já não é
necessária.
Ao longo dos anos o mercado muda, a
sociedade muda, as ameaças mudam, as matérias-primas mudam, a tecnologia
muda, o comportamento e as necessidades das pessoas mudam e, como
conseqüência, as organizações ou processos devem mudar, mas não o
fazem, ou se o fazem, morrem pela lerdeza. Aí reside o problema: não
gostamos de mudar e nos prendemos dramaticamente aos meios nos quais somos
especialistas e que representam a demonstração de nosso aparente poder.
Professores sempre querem mais
equipamentos de pesquisa. Policiais sempre querem mais viaturas. Somos
assim: reivindicamos meios sem criticar, constantemente, os fins a que se
destinam. Quais são os fins? Quais são as necessidades da sociedade? Se
os fins já não são os mesmos, se já não são necessários, então
todos os meios, por mais numerosos e sofisticados que sejam, são apenas
custos que não produzem valor para ninguém.
Devemos, anualmente, em qualquer
organização, rever sua missão e perguntar: Quais são as necessidades a
partir das quais nos estabelecemos? Quais são as novas necessidades das
pessoas? Qualquer organização deve ser periodicamente reprojetada tendo
em vista a sua nova função e as necessidades do meio em que vive
(mercados). Isto é a essência da "Gestão da Inovação". As
organizações devem inovar constantemente, estabelecendo suas novas
funções a partir das necessidades das pessoas, eliminando meios não
mais necessários ao cumprimento destas novas funções (e assim reduzindo
custos) e agregando novos meios devidamente projetados para cumprir estas
novas funções.
Nossas forças armadas e as
organizações de inteligência foram projetadas e treinadas para
enfrentar ameaças detectadas no passado. Estaremos preparados para
enfrentar as novas ameaças? Estaremos preparados para o terrorismo
estabelecido sobre novas tecnologias? Estaremos preparados para ataques
com armas biológicas? Estaremos preparados para enfrentar doenças
rapidamente transmitidas em um mundo de alto nível de deslocamento de
pessoas? As novas ameaças são enormes e inusitadas.
Nossas instituições, judiciário e
polícia, estabelecidas no passado, estarão preparadas para enfrentar uma
sociedade com costumes, recursos tecnológicos, disponibilidade de
armamentos e exposição internacional muito diferentes daqueles que as
instituíram originalmente?
As mudanças são a essência do
gerenciamento: mudanças de estruturas e de processos para que as novas
necessidades da população sejam detectadas e atendidas ao mais baixo
custo. Estas mudanças são muito difíceis de fazer. Elas exigem
lideranças com espírito público e visão de estadista. Por exemplo:
todos sabemos da necessidade de promover a reforma política, a reforma do
Judiciário, a reforma da polícia, a reforma tributária, a reforma
previdenciária, etc. Nossas instituições estão ultrapassadas pelas
necessidades da população e já não cumprem, eficientemente, a função
a que se destinam. A Gestão da Inovação, ou seja, o reajuste contínuo
das instituições tendo em vista as necessidades da população, deveria
ser a agenda de prioridades de todos os governantes, sejam eles do
Executivo, do Legislativo ou do Judiciário.
Temos assistido à reestruturação de
algumas empresas em que 40% da estrutura existente eram totalmente
desnecessários. Esta estrutura foi estabelecida no passado para cumprir
funções que naquela época eram necessárias. Estas necessidades
desapareceram, mas a estrutura continuava firme, tirando o vigor e a
competitividade da empresa.
O grande avanço tecnológico acelerou em
demasia as mudanças mundiais e aumentou o perigo, pois quanto maior o
nível de tecnologia maior o poder concentrado na mão do homem. Como em
Nova York, poucos homens matam milhares em pouco tempo e desarticulam o
sistema financeiro mundial. Isto seria impossível há cem anos, pois não
havia tecnologia que possibilitasse atos desta proporção. Hoje o mundo
está muito mais rápido e perigoso.
Este avanço tecnológico também provoca
mudanças muito rápidas para as empresas, que ou se adaptam ou morrem. A
rapidez das mudanças pega alguns executivos de surpresa: quando "cai
a ficha" já não há tempo. Grande parte das empresas desaparece.
Governos não morrem, mas a sua
inadequação às necessidades de hoje pode levar nações à pobreza e ao
desespero. Temos exemplo disto por perto.
Gerenciar é atingir novos resultados por
meio de mudanças constantes na organização. É por esta razão que
nós, na FDG – Fundação de Desenvolvimento Gerencial*-, acreditamos
que difundir um gerenciamento competente é uma missão das mais nobres e
que abraçamos com imensa dedicação. Um bom governo, seja ele de uma
empresa ou de uma nação, será aquele que conseguir conduzir seus
líderes à promoção de mudanças contínuas por meio do bom
gerenciamento. Serão mais bem-sucedidas as empresas e as nações que
estiverem preparadas para enfrentar o ritmo de mudanças necessárias à
sobrevivência nos dias que estamos vivendo.
Vicente Falconi Campos, PhD, é consultor e conselheiro do INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial. É também membro do Conselho de Administração da AmBev e Membro do Conselho de Administração da Sadia. Publicou seis livros na área de Gestão Empresarial que venderam mais de um milhão de exemplares.
Matéria publicada na
revista Economia do Estado de Minas, nº 42, outubro/2001.
** Por orientação do NCCB - Novo Código Civil Brasileiro, a FDG é agora uma Instituição de caráter puramente assistencial, apoiando gratuitamente escolas públicas e hospitais.
Os serviços antes realizados pela FDG são agora conduzidos pelo INDG - Instituto de Desenvolvimento Gerencial (www.indg.com.br).
|