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Jorge Gerdau, Carlos Alberto Sicupira e Gilberto Sayão são três dos homens de negócios mais ricos e ocupados do país. Gerdau preside o conselho do grupo siderúrgico que leva seu sobrenome e que está em meio a intenso processo de internacionalização. Sicupira é um dos controladores da cervejaria Inbev, a maior do mundo. O jovem e discreto Sayão é sócio do banco UBS Pactual e está empenhado em investir da melhor forma possível as fortunas amealhadas por ele e por seus colegas banqueiros. A cada três meses, eles e outros 34 empresários têm um encontro marcado num auditório do Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro, no bairro carioca de Laranjeiras. O propósito das reuniões é sabatinar o governador Sérgio Cabral e seus secretários sobre o programa de choque de gestão que vem sendo empreendido por um dos maiores e mais problemáticos estados brasileiros. A mais recente delas aconteceu na manhã do último dia 3 de março, para a apresentação dos resultados do primeiro ano do programa. O principal deles é um superávit de 795 milhões de reais em 2007 -- ante um déficit de 102 milhões de reais no ano anterior (veja quadro). "A dinâmica é semelhante à de um encontro de conselheiros de uma grande empresa", diz Olavo Monteiro de Carvalho, presidente do conselho de administração do grupo Monteiro Aranha, com participações em empresas como Klabin e grupo Ultra, presente na reunião realizada há poucos dias.

Os encontros trimestrais -- num modelo que segue preceitos de governança corporativa -- são exemplos do que se tornou o maior laboratório de interação entre governo e empresários no país. A aproximação entre as duas partes com o propósito de aplicar conceitos de negócios na esfera estatal não é inédita. A primeira experiência começou em Minas Gerais, no governo de Aécio Neves, em 2003. Um grupo de dez empresários patrocinou os serviços da consultoria de gestão INDG, de Vicente Falconi, no governo mineiro. Em apenas um ano, um amplo corte de custos e o aumento de arrecadação zeraram o déficit do estado, que alcançava 2,1 bilhões de reais. Com base nesse exemplo, o gaúcho Jorge Gerdau, um dos mentores da iniciativa em Minas, decidiu espalhar o movimento pelo país. "Com o reequilíbrio das finanças, esses estados voltarão a ter capacidade de investir em infra-estrutura e em serviços de qualidade", diz Gerdau. "E assim serão mais atrativos para receber investimentos." Hoje existem programas semelhantes em dez estados, como Alagoas, Pernambuco, São Paulo, Sergipe e Bahia. Mas nenhum outro reuniu tantos patrocinadores como o Rio de Janeiro. Orçado em 10 milhões de reais, o projeto -- também conduzido com a ajuda da consultoria de Falconi -- tem o apoio de 37 deles. Esse grupo de empresários e empreendedores não apenas financia, mas também fiscaliza as ações. "Saber que existe um grupo de patrocinadores ao qual devemos apresentar resultados nos estimula a perseguir metas", afirma o governador Sérgio Cabral.

O choque de gestão do Rio de Janeiro também chama a atenção por buscar eficiência para uma das áreas mais críticas do estado, a de segurança. "Um dos principais focos do programa no estado está nessa área", afirma Gerdau. Até agora, o corte de custos total em várias frentes chegou a cerca de 300 milhões de reais, de um universo de despesas de 2,7 bilhões de reais em 2006. No caso das polícias civil e militar, a redução de custos foi de 9 milhões de reais (cerca de 3% do total), e o objetivo é cortar outros 11 milhões até agosto deste ano -- num total de despesas de 90 milhões de reais. A terceirização da manutenção da frota foi a frente que surtiu mais resultados, com uma economia de 5 milhões de reais até dezembro de 2007. Além de cortar custos inúteis, a medida liberou 300 homens, que antes se dedicavam à manutenção dos veículos, para o policiamento nas ruas. Outra iniciativa para baixar as despesas foi a instalação de aparelhos eletrônicos nos automóveis da polícia para a medição do consumo de combustível. "A diferença por litro entre os batalhões foi gritante", diz o subsecretário de Segurança, Marcio Colmerauer.

O ATAQUE AOS CUSTOS resultou em mudanças estruturais. Onze secretarias -- de um total de 30 -- deixaram de existir ou passaram por uma espécie de fusão. (Foi o caso, por exemplo, da união das pastas de Turismo e de Esportes.) A revisão do quadro de pessoal levou ao corte de 30% dos cargos em comissão -- ocupados por funcionários não concursados -- e também atacou algumas aberrações. O exemplo mais eloqüente disso foi a demissão, neste mês, de 1 138 funcionários que ganhavam sem trabalhar, numa herança mal resolvida de empresas estatais que deixaram de existir ou foram privatizadas, como as antigas Central, de trens urbanos, e Riotrilhos, de metrô. Outras cerca de 1 600 vagas deverão ser cortadas até o final deste ano, resultando numa economia total de 140 milhões de reais anuais. "Os custos dessas demissões são recuperáveis em oito meses", diz Régis Fitchner, secretário-chefe da Casa Civil. "Se o estado tivesse feito isso há dez anos, estaria tudo resolvido."


O empresário Jorge Gerdau: missionário da gestão eficiente

A varredura em todas as despesas do Rio de Janeiro segue os mesmos princípios de eficiência usados, por exemplo, em projetos como o do Orçamento Base Zero, na Ambev. O método consiste em mapear as despesas item por item e estabelecer metas de corte. Hoje, as salas do departamen to de segurança do governo fluminense estão repletas de quadros coloridos pelas paredes indicando com sinais vermelhos, amarelos e verdes o cumprimento (ou não) de metas. O uso de pregões eletrônicos foi um ponto-chave no caso dos cortes na compra de materiais, envolvendo de produtos de limpeza até equipamentos de informática. Em 2007, 95% das licitações ocorreram em leilões pela internet e propiciaram uma economia de 67 milhões de reais.

Com a reestruturação, o estado conseguiu se

livrar de parte de seu endividamento. Havia um ano e meio o Rio de Janeiro não pagava, por exemplo, o contrato que tinha com a IBM, responsável pela manutenção do computador central do governo. A dívida era de 10 milhões de reais. Além de cortá-la pela metade, o governo renegociou o contrato, baixando o valor mensal de 250 000 para 150 000 reais. Começou a sobrar dinheiro também para investimentos. No ano passado, o estado formou a primeira turma de um curso fechado de gestão realizado em parceria com a Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. Cerca de 50 oficiais da Polícia Militar e delegados da Polícia Civil freqüentaram ao longo de quatro meses 432 horas de aulas sobre planejamento organizacional e análise de políticas públicas. A segunda turma começou as aulas neste mês. Em janeiro, a Secretaria da Fazenda realizou o primeiro concurso para fiscais em duas décadas, que abriu 37 novas vagas. Atualmente existem 390 fiscais no Rio de Janeiro -- ante 1 600 em Minas e 3 000 em São Paulo. "O próximo passo é criar metas e cobrar resultados", diz o secretário da Fazenda, Joaquim Levy. No ano passado, Levy estabeleceu o rodízio de fiscais e criou grupos de atuação por setor, o que inibe a corrupção. Resultado: o estado elevou em 1 bilhão de reais a receita do imposto. (Quando essa medida foi implementada em Minas Gerais, um grupo de fiscais fez denúncias de que os consultores do INDG estariam quebrando o sigilo fiscal dos contribuintes. O Ministério Público investigou a denúncia, mas nenhuma irregularidade foi encontrada.)

Agora, um dos principais objetivos é oferecer bônus por resultados aos funcionários públicos. Em Minas Gerais, cerca de 10 000 funcionários ganham bônus de até um salário atrelados a metas específicas para suas áreas. Outro passo é fazer um levantamento dos trâmites burocráticos entre o momento em que certos delitos são cometidos até o momento em que o criminoso é punido. "O objetivo é desburocratizar esse processo e torná-lo mais eficiente", diz o subsecretário de Segurança Colmerauer. "Em várias frentes, estamos buscando maneiras novas de abordar problemas antigos."



Fonte: Revista Exame de 20/03/2008

 

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