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Por isso, insisto em que as empresas brasileiras têm de aprender a enxergar as ameaças de longo prazo e já se adaptar a elas em seu planejamento estratégico: mudar-se para uma região competitiva e exportar de lá para cá, por exemplo, uma solução que os Estados Unidos têm feito intensamente com o México e a China.

Mas e o problema do emprego?
Globalização nada mais é do que a distribuição do trabalho no mundo. E, olhando do ponto de vista humano, é a coisa mais justa que existe. Por que vou ficar aqui egoisticamente chorando quando existem chineses e africanos num nível de vida baixíssimo, pior que o nosso? Pode-se criar proteção de mercado para tornar esse processo um pouco mais lento em alguns casos, mas o processo é inexorável. Alguns setores vão ganhar, outros vão perder.

Voltando às ameaças ...
Para mim, a grande ameaça é que estamos às vésperas de uma espécie de tsunami de inovações. Ou seja, pode ser que apareçam inovações tão radicais que coloquem todo um setor da economia de joelhos de repente. Por isso a inovação é tão perigosa. Veja bem: a vida             

do ser humano sempre foi mudando por conta de inovações, só que, como estamos num processo muito acelerado de mudanças mundiais, esse processo de inovação vem se acelerando terrivelmente. A inovação pode destruir empresas e setores da economia inteiros da noite para o dia e o Brasil não está bem posicionado nesse aspecto, por conta da educação de má qualidade. Para inovar, você tem de ter grande volume de pessoas com alta capacitação e tecnologia e essa é a grande dificuldade brasileira, porque nosso sistema educacional, definitivamente, não é bom.

Tem sido criada uma mentalidade nacional de melhora do sistema de educação, mas a melhora não tem acontecido na rapidez que poderia ter. Eu acho até que muita coisa está sendo feita, mas o problema é o tempo de resposta.

Acho que a batalha da inovação dos próximos 30 anos nós já perdemos, pelas perdas de educação no passado. Temos brasileiros muito bem-educados, mas o volume é baixo comparado ao dos Estados Unidos, Japão. Você tem de ter centenas, ou milhares, de pessoas em pesquisa de certo ramo da nanotecnologia para conseguir um breakthrough.

A Política de Desenvolvimento Produtivo anunciada pelo governo federal em maio, que investe em inovação, pode contribuir para diminuir nossa desvantagem competitiva em relação a outros países?
Eu gostei muito do fato de que eles colocaram quatro metas como princípio geral do programa - as metas-país. Nunca vi um governo federal no Brasil se colocar metas claras, como aumentar de 19% para 21 % a poupança nacional, o que significa milhões de empregos. Isso é gerenciamento, é foco em resultados, é começar a mexer as pedras do governo não em interesse próprio ou                

partidário, mas em função do interesse do País.

Falando especificamente de inovações, o governo colocou metas de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, que subiram de 0,5% para 0,65% do PIB. Isso é um aumento significativo nas dotações orçamentárias para P&D, o que eu acho muito bom e demonstra uma mudança de atitude política.

Então, o sr. é otimista?
Do ponto de vista da inovação das próximas décadas, eu sou um pouco pessimista, embora saiba que empresários fazem acontecer e podem sair por aí montando centros de pesquisa na Flórida, em Portugal... Mas temos de lutar muito para colocar o Brasil de novo nos trilhos na educação, temos de valorizar o brasileiro.

De resto, sou otimista. Não quero ser tomado por uma fantasia ufanista, mas me parece que, lentamente, está havendo uma mudança de cultura política no País. E essa cultura de gerenciamento para resultado pode verdadeiramente mudar o Brasil.

Quanto tempo o sr. acha que esse salto pode demorar sem que fiquemos novamente atrasados?
Na história de um país, 30 anos são algo muito rápido. Você pode mudar a cultura de uma empresa em cinco ou sete anos, mas a cultura de um país leva bem mais tempo para mudar.
Agora, se Deus der ao Brasil a graça de manter o Jorge Gerdau vivo por um tempo mais longo, esse processo vai se acelerar, sim. O grande herói nessa revolução silenciosa toda é o Jorge Gerdau. Ele é que vem fazendo o trabalho homem a homem, com sua influência e seu poder de empresário e de político. Ele tem me pegado pela mão e me levado para os governos.

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