![]() Gianetti e Jorge Gerdau, badalado economista e um dos maiores empreendedores brasileiros. "A gente erra nas euforias, mas tem como aproveitar esse aprendizado", afirma Gerdau |
Jorge Gerdau Johannpeter, presidente do conselho de administração do Grupo Gerdau, foi o centro das atenções no 2º Ciclo de Decisões - CEO Fórum 2009, evento realizado pela Câmara Americana de Comércio (Amcham) nesta quinta-feira em Porto Alegre. Frente a um público de 450 profissionais, a maioria deles presidentes, diretores ou gerentes de empresas, o empresário foi questionado por ninguém menos que o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. Entre os temas principais, a formação do verdadeiro líder. Jorge Gerdau foi enfático ao declarar que os empresários devem ter objetivos utópicos - mas, atenção, com um pé na realidade. Na visão dele, esse paradoxo é essencial para a formação de um profissional ideal para ocupar posições de liderança. Além disso, estudar profundamente mercados e, especialmente, o negócio em que se trabalha, foram algumas das bandeiras levantadas pelo presidente do conselho do Grupo Gerdau. Acompanhe a seguir os principais trechos do debate.
Eduardo Giannetti: Quais são as atribuições de um líder?
Jorge Gerdau: O maior agente social é o empresário. E quando vejo uma nova geração de jovens empresários como esses que estão aqui [na mesa, estavam Bernardo Hess, da ALL, e Bernardo Gradin, da Braskem], que caracterizam sua conduta de liderança pela simplicidade, fico tranquilo. A coisa mais difícil de definir é o líder. O que ele deve fazer é diferente, faz parte do comportamento pessoal de cada um. Também fico me perguntando lá na empresa como encontrar novos líderes, pois é um desafio. E é difícil, pois há aqueles que são barulhentos e também os silenciosos. Tem até alguns livros que tentam decifrar essa questão da liderança. Lembro de um publicado pela Fundação Peter Drucker contendo 32 textos sobre o assunto - metade deles escritos por CEOs e a outra metade por acadêmicos. Você lê aquilo e fica mais confuso do que estava antes, pois é tremendamente complexo. As responsabilidades do líder são enormes. Analisei nosso [da Gerdau] recente processo sucessório e vi existem pontos-chave neste trabalho. Primeiro é o de ter foco claro de onde estou e para onde quero ir. Essa postura deve ter uma evolução permanente. Isso também deve ser transportado para as nossas vidas, logo no começo de nossas carreiras. Lembro que um dia, quando eu estava iniciando na Gerdau, queria que ela fosse maior do que as outras duas que existiam na cidade.
Eduardo Giannetti: A ambição deve acompanhar o líder desde o início...
Jorge Gerdau: Aos 20 anos eu já tinha o cacoete de sonhar alto. Tem de ter uma cota de utopia. O segundo ponto que acho importante, voltando à primeira questão, é que é função do líder deixar todos os stakeholders satisfeitos fazendo investimentos, trabalhando a vizinhança social, o meio ambiente, etc. Construí com o Vicente Falconi, do INDG [Instituto de Desenvolvimento Gerencial], uma forma de acompanhar processos de forma a corrigir eficiência: o que melhorou, o que piorou? O terceiro fator é aquele que tem a ver com estudo. Para abrir foco, tem de criar meios para que isso aconteça. As pessoas precisam se atualizar constantemente e ver se as condições estão criadas para que o sonho seja alcançado. Mais um fator importante é o recurso humano. As pessoas fazem a diferença em uma organização. Com elas é que consigo construir o futuro. Mas se não cuidar de tudo, algo falha e tranca todo o processo. O líder tem de ter cota de otimismo, mas também tem de ser realista. Eu vejo muito claro um triângulo formado pelo líder, pelo conhecimento e pela gestão de processos. Não se pode descuidar de nenhuma dessas pontas. O papel do líder é importantíssimo, e do líder empresarial mais ainda. Não tem para político, professor ou padre. Nós somos homens de ação. Temos um dote, uma benção. Ser humano tem suas potencialidades e devemos procurar melhorar dentro de cada um de nós.
Eduardo Giannetti: Existe alguma lição permanente para os empresários que tenha ficado da recente crise que acabou de completar um ano?
Jorge Gerdau: A primeira atitude é ter humildade de analisar. Recomendo que anotem todas as falhas e potenciais erros que foram observados em um cenário de crise. Na crise que passamos, acho que discutimos em excesso e ficamos na ortodoxia em relação aos juros. É preciso analisar mais. A gente erra nas euforias, mas tem como aproveitar esse aprendizado. Recordo que antes do começo da crise estávamos comprando uma empresa enorme. Estávamos com o negócio fechado e os bancos lá fora começaram a não dar crédito. Não usei esse sinal e não me dei conta de que era uma evidência da crise que estava por vir. Não usei o sinal suficientemente, mas agora é fácil falar, não?
Eduardo Giannetti: Ou seja, otimismo é perigoso...
Jorge Gerdau: Tem euforia, mas também preocupação. O empresário vive dessas dicotomias. Por isso, afirmo que é necessário analisar e analisar. E se isso acontecer? E se aquilo não acontecer?
Eduardo Giannetti: Enquanto o senhor pensa na resposta, pergunto outra coisa: existe algo que, se soubesse de antemão, mudaria sua vida?
Jorge Gerdau: Não se pode perder o entusiasmo, mas também é preciso correr os riscos de uma decisão. Tem de estudar muito. Há dois itens que podem diferenciar as pessoas: atitude e disciplina. Atitude de fazer é importante, mas a disciplina é ainda mais. Tem de estudar, analisar, buscar mais informações, especialmente quando estamos em tempo que todos dizem que tudo está bom. A atitude de desconfiança minimiza o risco. Também é importante sempre ter um plano B, um plano C. Claro que não pode virar fanatismo, mas é bom ter. A minha maior falha, que me culpo até hoje, é não ter estudado mais. Tem de estudar para que as coisas tenham chances baixas de erro e alta probabilidade de sucesso. Por isso, tem de ter muita disciplina.
Eduardo Giannetti: Mas quanto mais se sabe, mais cresce a dúvida. Se acabar estudando demais, o empresário vai ficar com tantas dúvidas que não empreende...
Jorge Gerdau: Essa é a diferença do empresário e do intelectual [risos]. Não adianta ser inteligente e sábio, mas ser inútil. Na vida empresarial, tem de se ter uma cota de estupidez. É aí que está a riqueza dessa dualidade, por isso ela é fantástica. Se eu tivesse estudado mais, faria coisas ainda maiores. Falo isso para que cada um se avalie e busque essa dualidade. Eu não tenho uma fórmula pronta.
Eduardo Giannetti: Na biografia de grandes empreendedores, algo que chama a atenção é a capacidade que eles têm de absorver fracassos transformando isso em força. Como não se abater diante de derrotas quando se busca inovar, por exemplo?
Jorge Gerdau: Tombo todo mundo leva. E minha forma para aprender é levantar. A maior característica do CEO é tomar tombo. Tem de levantar e ir adiante. Isso está no DNA do líder. Ele não tem medo de levar tombo. E quem nunca levou tombo um dia tomará um. Será uma vida perdedora se não tiver tombos. O grande aprendizado está aí. Por isso, também é bom ler, pois se aprende com os tombos dos outros também.
Eduardo Giannetti: Mas o fracasso é visto ainda como algo moralmente condenável.
Jorge Gerdau: Eu não tenho resposta para isso, pois não analisei a fundo. Mas acho que devemos, nas empresas, premiar cada vez mais as iniciativas. O mais importante é não perder a iniciativa, independentemente do resultado. Defendo essa sistemática, pois a premiação ajuda a estimular o empreendedorismo.
Fonte: Marcos Graciani/Redação de AMANHÃ. Foto: Waldomiro Aita.