Na primeira edição de 2010 o jornal Sinergia conversa com um dos mais renomados consultores brasileiros na área da gestão pela qualidade, Vicente Falconi. Conhecido e respeitado em diversos países, Falconi é o pioneiro da qualidade no Brasil, criador e orientador do Instituto de Desenvolvimento Gerencial (INDG) e autor de seis livros sobre gestão empresarial, sendo o mais recente "O Verdadeíro Poder". Em entrevista exclusiva ao Sinergia, ele fala sobre qualidade total, gestão eficaz e revela o segredo do método gerencial adotado por ele em grandes empresas e governos.
SINERGIA: O senhor é considerado o mais influente consultor do país em gestão de empresas e governos. Em sua opinião, o que é uma gestão eficaz?
FALCONI: aquela que entrega um valor superior de margem liquida dentro de seu setor. Aquela praticada pelo governo que consegue manter o orçamento equilibrado e o maior percentual de investimento sobre o orçamento. Além disso, consegue entregar os melhores indicadores de educação (como o ENEM), de saúde e segurança. A gestão é julgada pelos resultados'
SINERGIA: Qual o segredo do método gerencial e porque ele desperta o interesse de tantas empresas?
FALCONI: Por volta de 1.600, René Descartes, que propunha a utilização do método como a busca da verdade, já dizia que "o bom senso deve ser o bem mais abundante deste mundo, pois ninguém deseja ter mais do que o que já possui" O ser humano tem uma tendência de achar que gerenciar uma organização é questão de bom senso: basta sentar na cadeira e começar a tomar decisões. No passado talvez isto bastasse. Hoje não dá mais. O segredo do método é que ele é o caminho detalhado para se tomar decisões na direção certa e que se perenizam pela estabilidade dos processos. O método tem que ser ensinado às pessoas nào só por meio de aulas, mas também "pegando na mão e fazendo junto".
SINERGIA: O método gerencial vem sendo introduzido no setor público brasileiro. Esse setor também pode ter uma gestão eficiente?
FALCONI: Nossa experiência nesta área nos mostrou que o setor público pode ser tão eficiente quanto o privado. Nós todos somos seres humanos iguais com as mesmas ambições, os mesmos sonhos. De uns dez anos para cá vem aparecendo em nosso País uma nova geração de políticos que já perceberam o valor do método e estão utilizando isto em benefício de seu povo.
SINERGIA: Como aplicar conceitos de eficiência e melhoria contínua em empresas tão diferentes e ao mesmo tempo em governos de variados estados?
FALCONI: Se o líder quiser e estiver disposto a investir nas pessoas a revolução se dará, qualquer que seja a organização. Temos trabalhado com indústrias, bancos, empresas seguradoras, escolas, hospitais, empresas aéreas, ministérios, governos estaduais, prefeituras, entre outros. Todos com resultados excelentes e com um grande ânimo do pessoal que sente que está aprendendo dia a dia um conhecimento que serve para o resto de suas vidas.
SINERGIA: Existe uma fórmula para conquistar a qualidade total?
FALCONI: Sim, existe: muita insistência e percepção de que uma empresa é constituída de pessoas .que precisam de tempo para aprender. Você usou a palavra certa em sua pergunta: "conquistar". A qualidade total não é como um tapete que você compra, instala e pronto. Ela é conquistada por muitos anos de esforço e dedicação. Isto, em absoluto, não quer dizer que os resultados só irão aparecer no final. Os resultados começam a aparecer logo no quarto ou quinto mês e devem ser rnonitorados. pois o que indica que você está no caminho certo são exatamente os resultados que estiverem sendo conseguidos.
SINERGIA: Ao longo desses 30 anos de carreira como o senhor avalia a qualidade no Brasil hoje?
FALCONI: Avalio que estamos no bom caminho. No final da década de 1970 eu e o Prof. José Martins de Godoy, ainda como professores da UFMG, sonhávamos em poder ajudar o País por meio do ensino da Qualidade Total. Suamos a camisa para que isto acontecesse, mas confesso que nunca esperei que conseguíssemos chegar aonde chegamos. Creio que conseguimos trazer a prática do método para o Brasil e isto só nos anima a lutar ainda mais para que estas conquistas se transformem efetivamente em riqueza para o povo.
SINERGIA: É possível afirmar que já se criou em nosso país a cultura da qualidade?
FALCONI: Nem de longe. Vai levar tempo. Para que uma organização se volte de fato para a qual idade total (como satisfação para os stakeholders: clientes, acionistas, funcionários e vizinhos) é necessário que certo patamar de conhecimento, cultura e disciplina seja alcançado. Não é fácil e esta é a luta da maioria das empresas e organizações governamentais no Brasil. Por exemplo: para você projetar um produto para o mercado (seja lá uma mercadoria ou um serviço) a coisa certa é usar o método QFD (Quality Function Deployment). Ora, se você não tem um sistema gerencial com uma excelente rotina operacional e um corpo executivo que saiba trabalhar com metas (desde estabelecê-Ias até garantir que foram atingidas) fica difícil. Em minha percepção ainda não existe no Brasil uma empresa que esteja, toda ela, num patamar exemplar Algumas melhoram um pouquinho e acham que já está bom Não persistem. Mas o resumo geral, eu diria, é que estamos, no Brasil, num ritmo muito bom. Nossa luta lá soma 30 anos e os ioveos de hoje sabem muito mais do que eu sabia há dez anos. Eles são muitos e vão carregar esta missão com mais competência e em número muito maior. Eles é que nos levarão à excelência em termos mundiais. Tenho fé e esperança nos jovens.
Fonte: Jornal Sinergia - UBQ (01/02/2010).